quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Livro MENSAGEIRO, de JC DE SAINTS

Livro MENSAGEIRO

Autor: JC de Saints

Edição 2014 (PoloBooks - São Paulo, SP)

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Capa:


Dedicatória do autor (Página 1):


Páginas de 246 a 248:




Embora este blog se destine parcialmente às minhas participações em livros, em “MENSAGEIRO”, de JC de Saints, sou apenas citado pelo autor. Portanto não se trata de participação minha na feitura da obra. Contudo, resolvi inclui-la nestas minhas lembranças, porque JC de Saints relata a maneira como nos conhecemos: ele fazia pesquisas na internet sobre o Cárcere Mamertino, quando encontrou uma publicação minha em jornal, na qual eu relatava as minhas impressões ao conhecer aquele que é um dos mais lúgubres locais históricos da Roma Imperial.

Como JC de Saints tinha estado em frente ao Cárcere Mamertino, mas este encontrava-se fechado, bem como a igreja que existe sobre o mesmo, ele localizou-me para pedir-me para usar as minhas palavras no livro que estava escrevendo. Concordei, e na sua obra ele, gentilmente, fez alusão à minha coluna, que poderá ser lida na íntegra no seguinte link, sob o título "Lembranças do Cárcere Mamertino e sua Cruz Invertida":

http://viagenseopinioes.blogspot.com.br/2011/10/jornal-centro-civico-ano-9.html

Ao valoroso autor JC de Saints, desejo sucesso para "MENSAGEIRO", a toda a sua obra já publicada e àquela que ainda será criada num venturoso futuro próximo.

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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

"DURA VIDA DE INSPETOR", texto premiado de Francisco Souto Neto, 2º classificado no Concurso MEMÓRIA PREMIADA promovido pela AFAB (Associação dos Funcionários Aposentados do Banestado), e ainda: "O QUE FOI O PROGRAMA DE CULTURA DO BANESTADO" e "A HISTÓRIA DAS TELAS PERDIDAS DOS PRESIDENTES DO BANESTADO".

O Jornal da AFAB de agosto de 2013 lançou um concurso de contos, “causos” e casos ocorridos no ambiente do Banestado, com o título de MEMÓRIA PREMIADA. Seriam concedidos aos três melhores trabalhos os seguintes prêmios: R$1.500,00 ao 1º colocado, R$1.000,00 ao 2º colocado e R$500,00 ao 3º colocado.



Acima, capa do Jornal da AFAB de agosto de 2013



Acima, na página 9, o regulamento do concurso.



Acima, capa do Jornal da AFAB de dezembro de 2013



Acima, na página 5, a notícia das premiações do concurso MEMÓRIA PREMIADA:
1ª prêmio a Amaury Ormianin por “VITO PRETO”;
2º prêmio a Francisco Souto Neto por “DURA VIDA DE INSPETOR”;
3º prêmio a Marivoni Zibetti por “LÁGRIMAS DE OURO”.



Acima, na metade inferior da referida página 5, está transcrito o texto 1º classificado. Os 2º e 3º classificados ficaram de ser publicados nas duas edições seguintes do Jornal da AFAB.



Acima, detalhe dos nomes dos três classificados. A caneta aponta o nome do 2º classificado, cujas três participações (sob três diferentes pseudônimos, conforme permitia o regulamento) vão adiante transcritas para conhecimento dos colegas banestadenses e também porque revelam histórias ocorridas no Banestado.

Natalino Sbrana, Fernando Prezutti, Paulino França do Nascimento Neto, Francisco Souto Neto, Newton Barbosa Almada da Silva e Carlos Zatti.

Acima, a entrega do prêmio a Francisco Souto Neto nas dependências da diretoria da AFAB, estando presentes colegas da diretoria e da comissão julgadora. A partir da esquerda: Natalino Sbrana (Diretor Financeiro), Fernando Prezutti (Presidente), Paulino França do Nascimento Neto (Diretor de Eventos), Francisco Souto Neto (com a outorga do 2º prêmio e o cheque no valor correspondente), Newton Barbosa Almada da Silva (Diretor de Promoção Social) e Carlos Zatti (membro da comissão julgadora).

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Adiante, as três participações de Francisco Souto Neto no concurso, e aquela que foi premiada (DURA VIDA DE INSPETOR, pelo episódio “Andirá”):

1ª participação:
(Classificada em 2º lugar no concurso, pelo subtítulo “Andirá”)

DURA VIDA DE INSPETOR

Autor: Francisco Souto Neto
Concorreu com o pseudônimo de Paco Ramirez

No começo da década de 70, quando prestei concurso interno para inspetor e tive a felicidade de ser um dos primeiros classificados, eu era funcionário na agência do Banco do Estado do Paraná S. A., o Banestado, em Ponta Grossa, distante cem quilômetros de Curitiba. Chamado a assumir o cargo, viajei à capital para conhecer o chefe dos inspetores, Wilson Ganem, e participei do Curso de Formação de Inspetores na “Casa da Júlia”, apelido carinhoso dado pelos colegas à mansão localizada na Rua Júlia Wanderley, onde eram ministradas as aulas.
Realizei as três primeiras inspeções na companhia de um colega mais velho, que me ensinou a prática e a rotina de trabalho adequadas às nossas funções. Depois disso, passei a viajar quase sempre sozinho. Com um destino secreto determinado na sexta-feira anterior – secreto porque tínhamos que chegar à agência de surpresa – pode-se dizer que meu trabalho se iniciava no domingo. Após almoçar com minha família, eu arrumava a mala e a padronizada pasta de executivo e viajava a Curitiba. Por volta da meia-noite tomava um ônibus-leito para determinada cidade do interior do Estado, e lá, quando necessário, adquiria outra passagem para alguma minúscula localidade onde se encontrava a minha agência de destino.
Apenas as principais estradas do Paraná eram asfaltadas: de Curitiba a Foz do Iguaçu, a Londrina, a Maringá e a Paranaguá. Salvo outras raras e honrosas exceções, todas as demais rodovias eram de terra. Em tempos de seca, amargávamos a poeira, as curvas e os solavancos; em tempos de chuva eram as derrapagens e, não raro, o ônibus encalhado na lama.

Catanduvas

Ao iniciar quatro narrativas, gostaria de mencionar, na primeira delas, um exemplo de pequena cidade paranaense do início da década de 70, que era servida pelo Banestado. Tratava-se de Catanduvas. De topografia acidentada, a localidade ainda não conhecia vias públicas pavimentadas. Ruas e passeio de pedestres eram de terra contínua e batida. O único hotel da cidade resumia-se a um casarão de madeira, cujo corredor central abrigava quartos em ambos os lados. Ao fundo, localizavam-se as privadas e os banheiros coletivos.
A chegada de um inspetor era sempre uma surpresa desagradável para o gerente. Trabalhei exaustivamente no primeiro dia de inspeção. À tardinha tomei um banho no hotel e jantei num restaurante próximo, onde uma senhora afável preparava alguma refeição decente. Retornando ao hotel, cansado, deitei-me e apaguei a luz. De repente, um susto: na escuridão do quarto, vi brilharem milhares de estrelas por todos os lados. Estrelas grandes, menores, com as luminescências menos ou mais intensas. Seria um sonho? Como explicar o universo iluminado ao redor de todo o quarto? Fascinado com o estranho mistério, aproximei-me das luzinhas e descobri que elas estavam realmente nas paredes, de alto a baixo. Eram... pequenos orifícios. Olhei através de um deles e vi o quarto vizinho, onde era possível observar tudo o que o hóspede fazia. Num lapso de segundo, um insight me fez compreender que as paredes estavam sendo destruídas por cupins e que estes, em seu indiscreto e voraz apetite, faziam desaparecer a privacidade dos quartos e, certamente, punham em risco a integridade dos hóspedes que poderiam ser esmagados pelo colapso das madeiras podres. Se a noite foi desagradável, a descrição das manhãs no hotel não poderia ser feita por outro adjetivo mais adequado. É que na primeira manhã, ainda escuro, começou um ruído que parecia um crescente tropel de poderosa boiada. As estrelas e galáxias das paredes voltaram a iluminar-se, e o universo brilhante mais uma vez se instalou ao redor da minha cama. Levantei-me sem acender a luz e abri a porta para ver a causa do crescente ruído. O tropel era das pessoas que iam e vinham na disputa pelos banheiros e perambulavam procurando a sala do café da manhã.
Naquela cidade eu começava a trabalhar antes da chegada do gerente e dos funcionários, e era o último a sair da agência, lá pelas dez horas da noite, de modo a concluir o trabalho o mais rápido possível e poder retornar à civilização. Aprendi também que, algumas vezes, era preciso ficar hospedado em outra cidade próxima à agência de destino, e todas as manhãs e tardes fazer o percurso de ida e volta, assim garantindo um pouco mais de conforto para a hora do repouso noturno.

Joaquim Távora

Minha segunda narrativa envolve uma inspeção que fiz em Carlópolis. Para chegar a essa localidade, as rotas dos ônibus intermunicipais eram bastante complexas. Primeiro viajava-se de Curitiba a Londrina em ônibus-leito, e depois em ônibus convencional até Joaquim Távora. Nesta cidade era preciso esperar cerca de duas horas e meia, quando partiria outro ônibus rumo a Carlópolis. Naquela ocasião não levei minha câmera fotográfica e me lamentei disso, porque Joaquim Távora parecia um lugar parado no tempo, pacato e interessante, que bem mereceria algumas fotografias. Enquanto não chegava a hora do meu embarque, comecei a passear pela cidade. Famílias sentavam-se em cadeiras colocadas nas calçadas, encostadas às suas residências, e ficavam olhando o movimento da rua – melhor seria dizer “apreciando a calmaria da rua”. Quando eu passava por essas pessoas e as olhava, elas baixavam os olhos imediatamente, num estranho ato reflexo que talvez fosse de timidez. Observei os detalhes da arquitetura da cidade, um tanto pobres mas não destituídos de beleza. Parei várias vezes para olhar bucólicos quintais com galinhas. Entrei na catedral para apreciar seu interior. Na praça central um homem estava sentado num dos bancos, eu o cumprimentei e lhe fiz algumas perguntas sobre a cidade como, por exemplo, onde se localizava a agência do Banestado. Apenas por curiosidade fui até ao local indicado e observei que aquela agência de Joaquim Távora era uma antiga construção térrea com as janelas do tipo “vitrô” voltadas à calçada. Por um dos “vitrôs” olhei para dentro da agência, vi os funcionários trabalhando e o ótimo movimento de clientes. Voltei à praça principal, agora totalmente vazia, e sentei-me num dos bancos aguardando a hora de ir para a estação rodoviária e embarcar para Carlópolis. Sonolento, fiquei a ouvir o chilreio dos pássaros que suavemente interrompia o silêncio da cidade.
De repente meu mundo de calmaria foi violentamente abalado: um veículo da polícia parou ruidosamente num lado da praça, de lá saltaram vários soldados acompanhados de um cidadão (depois eu soube que se tratava de um advogado) que correram ameaçadoramente em minha direção. Assustei-me, sem entender o que se passava. Mandaram-me acompanhá-los. Espantado, perguntei o motivo e disse-lhes que deviam estar me confundindo com outra pessoa. Responderam que isso seria esclarecido na delegacia. Apresentei-me aos nervosos homens da lei como advogado que sou, e inspetor do Banestado, sem sucesso. Meu bom senso me recomendou acompanhá-los. Compreendi que eu estava detido por algum motivo equivocado. Lembrei-me na hora do livro “O Processo”, de Franz Kafka, que conta a história de um homem que é preso sem saber o motivo, é julgado e condenado à morte... e morre sem saber qual a acusação que pesava contra ele.  Uma vez na delegacia, abriram minha valise e examinaram tudo, peça por peça. Logo chegou o gerente da agência local do Banestado, cujo nome infelizmente não me recordo, mas que foi muito atencioso, acreditando que eu realmente não era quem os demais pensavam que fosse. Mais tarde eu soube que o advogado que acompanhava os policiais foi quem fez a denúncia à polícia, alegando que “um homem andava pela cidade em atitude suspeita, que conversou na praça com um mau elemento e que esteve sondando casas e a agência do Banestado”.
Sem um pedido de desculpas, liberaram-me a tempo de embarcar para Carlópolis, mas posso adiantar que foi uma experiência muito traumática. Dias depois, quando já estava em casa, comprei dois exemplares do referido livro de Kafka; enviei um ao delegado de polícia, e outro ao advogadozinho, pedindo-lhes que lessem e depois doassem o exemplar à biblioteca pública. Em algum local, dentre milhares de documentações, tenho ainda anotados os nomes de ambos. Como consequência do desagradável episódio, durante alguns anos tive a sensação de ter passado por uma estranha cidade onde viviam dois – ou mais – cidadãos primitivos, desconfiados e carentes de civilidade.

Toledo

Cheguei à cidade de Toledo, próxima a Cascavel, numa manhã de segunda-feira. No sábado seguinte eu seria padrinho de casamento de João Vargas d’Oliveira Júnior, um amigo de infância em Ponta Grossa. À medida em que os meus trabalhos avançavam, comecei a descobrir irregularidades na documentação da agência. Sentado à mesa que ocupei para trabalhar, eu fazia as anotações num papel, que depois comporiam o relatório de inspeção, quando senti uma respiração no meu pescoço. Levei um susto e dei um salto para o lado. Era o gerente com a cabeça quase encaixada no meu ombro e os olhos grudados no que eu anotava no papel. Repreendi-o, dizendo-lhe que ele receberia uma cópia do meu relatório quando estivesse formalmente concluído. Entretanto, à medida em que meu trabalho avançava, encontrei um problema que poderia se constituir na “ponta de um iceberg”. Na sexta-feira resolvi não deixar a agência, temendo que no sábado e domingo alguns documentos pudessem ser subtraídos. Deste modo, trabalhei durante todo o fim de semana, deixando o posto apenas para me alimentar e dormir. Ao final, as irregularidades não eram tão graves, mas perdi o casamento do meu amigo por colocar, como realmente tinha que ser, o interesse do Banestado à frente dos meus interesses pessoais.

Andirá

Eu e um colega que vou aqui chamar de “João”, fazíamos em conjunto a inspeção na agência de Andirá. Terminamos nosso trabalho numa quinta-feira. Era julho, mas os dias anteriores tinham sido quentes. Porém a temperatura caiu verticalmente naquela data. Eu e João não estávamos com agasalhos suficientes. Enquanto esperávamos pelo ônibus que antes nos levaria a Londrina, meu colega dava longas corridas pela rodoviária aberta, indo e voltando, “para espantar o frio”. Chegamos a Londrina quase congelando, e João me disse que, devido ao frio, ao chegar a Curitiba ele iria dormir pelo resto da manhã para se recuperar, e que só após o almoço, ou no fim da tarde, iria prestar contas com o chefe dos inspetores. Acrescentou: “Em vez de você ficar ‘se matando’ em viagem direta a Curitiba para prestar contas ainda de manhã, desça do ônibus em Ponta Grossa, descanse na sua casa, almoce, e depois disso viaje para prestar contas em Curitiba”.   Gostei da ideia e resolvi que desembarcaria na minha cidade para descansar pelo restante da manhã, almoçar em família, e seguida embarcar para a Capital. Enquanto esperávamos pelo ônibus em Londrina, encontramo-nos com um colega, que vou chamar de “Aparecido”, que terminara uma inspeção numa cidade próxima. Portanto, embarcaríamos os três no mesmo veículo. Ali na plataforma despedi-me dos colegas João e Aparecido, entrei no ônibus e disse ao motorista que eu ficaria em Ponta Grossa na esquina da Rua Balduino Taques com a XV de Novembro, a cem metros da minha residência. Minha poltrona era a primeira no lado das individuais do ônibus-leito, e sobre ela coloquei no bagageiro a minha valise e a pasta de executivo. João escolhera uma poltrona ao fundo, e Aparecido ocupou o lugar atrás de onde eu estava. Iniciamos uma longa e sofrida viagem. Várias vezes o motorista parou o ônibus na estrada e desceu para ir raspar com uma faca o vidro dianteiro, porque ali se formavam cristais de gelo que atrapalhavam a sua visão. Na janela ao lado da minha poltrona também surgiram cristais gelados pelo lado de fora, que tomaram formas arredondadas e sinuosas. A temperatura estava bem abaixo de zero.
Passamos por Ponta Grossa ainda noite, eu peguei a mala e a pasta padronizada de inspetor, desembarquei e em apenas um minuto, tiritando de frio, alcancei o edifício onde residia. Entrei silenciosamente, pois minha mãe dormia em seu quarto com a porta fechada, esquentei um copo de leite e fui para o meu quarto. Tão intenso era o sono que me deitei e adormeci quase instantaneamente.
Foi então que tive um estranho sonho. Sonhei que meu chefe, Wilson Ganem, telefonava para minha casa. Minha mãe atendia ao telefone, vinha ao meu quarto, e me dizia: “Seu chefe telefonou, pedindo que vá imediatamente para Curitiba”. E no sonho eu respondia à minha mãe: “Diga-lhe que estou dormindo e que chegarei somente à tarde”. Despertei no mesmo instante, lembrando-me com clareza do sonho. Ainda não tinha amanhecido. Saí do meu quarto, fui ao da minha mãe, abri cuidadosamente a porta e ouvi que ela ressonava. Voltei à cama e adormeci.
De repente minha mãe abriu a porta e me falou exatamente assim: “Meu filho, seu chefe acaba de telefonar, pedindo que você vá imediatamente a Curitiba”. E eu, ainda tonto de sono, perguntei a ela: “Mas a senhora está me dizendo isso pela segunda vez?”. Minha mãe respondeu: “É claro que estou lhe dizendo isto pela primeira vez. Seu chefe acaba de telefonar e me disse que você desembarcou aqui em Ponta Grossa com a pasta de seu colega Aparecido, e que este ficou com a sua”. Eu não conseguia compreender. Perguntei à minha mãe que horas eram. Respondeu-me: “São nove e meia”. Insisti se ela não teria me dado o mesmo recado antes de amanhecer. Ela me respondeu rindo que eu certamente tinha sonhado, pois recebera o recado uma só vez e naquele exato momento.
O que se passou foi um fenômeno de premonição, tão estranho e raro, que poderia interessar até mesmo aos estudiosos desses eventos. Ou seja, eu sonhei antes do amanhecer com um telefonema que iria ocorrer de fato somente horas depois, às nove e meia da manhã. Fiquei impressionadíssimo por ter sido eu o objeto de um sonho premonitório. Devido a essa estranha experiência, eu iria mudar meu conceito de mundo, com a convicção de que aquela máxima de Shakespeare na tragédia Hamlet era extremamente verdadeira: “há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”.
Tomei um banho rapidíssimo, nem fiz a barba e chamei um táxi para que me levasse a Curitiba – obviamente às minhas próprias expensas. Naquele tempo em que não se conheciam as limitações de velocidade nas estradas, meu táxi “voou” até à capital, onde cheguei observando os telhados brancos que resistiam ao degelo. Era a grande nevada da década de 70. Fui diretamente ao setor de Recursos Humanos do Banestado. O motorista de táxi esperou-me na porta, enquanto subi e pedi o endereço do meu colega João, pois sentia necessidade de contar-lhe o sucedido, e meu estranhíssimo sonho premonitório, antes mesmo de nos encontrarmos com nosso chefe. João residia num bairro distante, e segui no táxi vendo os vestígios da neve por toda parte. Chegando à casa do João, bati palmas e sua esposa atendeu. Identifiquei-me e pedi para falar com ele. A esposa me disse: “Mas o João ainda não chegou. Ele me telefonou dizendo que sairia de Londrina hoje cedo, e que chegando à tarde irá diretamente para a inspetoria”. Fiquei desconsertado, sem compreender imediatamente o que se passava, pois João viajara comigo no mesmo ônibus e teria chegado a Curitiba ao amanhecer. Em segundos compreendi: João não tinha ido para sua residência, mas para a casa da amante, onde ficaria até à tarde. Que susto! Se eu tivesse dito que viajamos juntos durante toda a noite, teria se desencadeado uma séria crise familiar. Porém tivemos um final feliz. Fui à inspetoria, onde eu e Aparecido destrocamos as pastas. Só reencontrei o João muitos anos depois, e discretamente resolvi não tocar naquele assunto.
Dura vida dos inspetores. Pelo sucesso da nossa empresa, entretanto, demos a ela o que de melhor tínhamos. O Banestado se foi para sempre, esmagado pela ganância e desonestidade de alguns e pelos descaminhos da malfadada política de privatizações em níveis estadual e federal pelo Governo FHC, que tanto prejuízo e dor infringiram ao Paraná. Mas todos nós, os funcionários, irmanados pelos nossos próprios ideais, realizamos com galhardia e sinceridade as nossas tarefas, cujos resultados haverão de permanecer indeléveis através do tempo, inscritos nas nossas memórias e corações.

- FIM -

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2ª participação:

O QUE FOI O PROGRAMA DE CULTURA DO BANESTADO

Autor: Francisco Souto Neto
Concorreu com o pseudônimo de Velho Companheiro

          Após o longo período da ditadura, quando os governadores eram impostos pelo Poder Militar através das “eleições indiretas”, o primeiro eleito no Paraná em sufrágio universal foi José Richa, que assumiu em 15 de março de 1986. Na composição da nova diretoria do Banestado, ele levou Léo de Almeida Neves à presidência da instituição, e indicou seu amigo Octacílio Ribeiro da Silva para o cargo de diretor de Crédito Rural e Agroindustrial. Francisco Souto Neto, que já era assessor daquela diretoria desde os tempos do Governo Jayme Canet Júnior, foi mantido no cargo. Afortunadamente a Carteira Rural, criada por Paulo Schultz Filho, tornara-se um exemplo de trabalho sério e disciplinado, que servia de modelo para inúmeros outros bancos e era respeitada e enaltecida pelo Banco Central do Brasil. Os antecessores de Octacílio Ribeiro naquela diretoria, desde o Governo Canet (Mário Saporiti, Ivo Meirelles de Almeida e Lourival Guebert), tinham sido muito sérios e capazes, e deixaram a diretoria perfeitamente organizada, sem ingerências de políticos, num patamar altamente elogioso.

          Era natural que os diretores do primeiro governo eleito pelo povo chegassem desconfiados, imaginando que o Banestado poderia ser um covil de víboras. No primeiro contato com o assessor da diretoria, Octacílio Ribeiro disse: “o senhor fica até que a poeira assente”. Mandou convocar os chefes da Divisão e dos Departamentos para uma reunião “em quinze minutos, sem atrasos”. Nessa reunião o novo diretor esmurrava a mesa com tanta força, que cinzeiros e copos trepidavam. Ele tinha certeza do seu poder e intimidava a todos. Ao assessor Souto Neto falou: “eu sou muito exigente com a Língua Portuguesa”, ao que este lhe respondeu: “Então nós nos daremos bem, pois eu também sou muito exigente com o idioma pátrio”.

          Com a passagem do tempo, Octacílio Ribeiro percebeu que a Carteira Rural, como era chamada a sua diretoria, funcionava com a precisão de um relógio suíço, e que todos ali trabalhavam com responsabilidade e presteza. Anos depois o assessor comentou, e isto ficou registrado na imprensa, que aos poucos ele foi descobrindo que por trás do homem carrancudo e furioso existia outro ainda mais forte, dotado de grande cultura e sensibilidade, e pressentiu que aquele diretor combativo poderia apoiar a ideia de direcionar o banco para as causas da cultura com argumentos capazes de convencer os seus demais pares de diretoria.

          A primeira ideia partiu de Adão Vilmar de Oliveira, que após a aposentadoria de Paulo Schultz ocupava o cargo de chefe da Divisão de Crédito Rural, e de Elzi Zanotto Hohmann, secretária da diretoria, sugerindo a Octacílio Ribeiro que realizasse uma exposição revelando os artistas plásticos existentes entre os funcionários da empresa. Francisco Souto Neto ampliou a ideia, propondo a criação de um salão de arte que se repetisse anualmente, que seria realizado sem despesas para o banco, porque era possível obter recursos oriundos não apenas da Lei de Incentivo à Cultura, mas também do patrocínio de empresas que seriam beneficiadas com a simples divulgação do evento através da imprensa. Sugeriu ainda que o salão de artes plásticas aceitasse inscrições não apenas de funcionários, mas também de correntistas do Banestado, que fossem artistas em fase de desenvolvimento e que ainda não tivessem recebido prêmios em salões oficiais ou de reconhecido nível, caracterizando-se como “artistas inéditos”. Souto Neto pediu ao diretor Octacílio Ribeiro que obtivesse permissão da diretoria para que Tadeu Petrin fosse autorizado a ajudá-lo na criação do regulamento do certame, que teria o nome de “Exposição de artistas amadores funcionários e clientes do Banestado”. Com a anuência dos demais diretores, o presidente Léo de Almeida Neves autorizou a realização do certame. Posteriormente, na distribuição dos certificados de participação, o nome do evento foi alterado retroativamente para “1º Salão Banestado de Artistas Inéditos”, o SBAI.

          O Banestado não tinha um espaço adequado para realizar o evento, por isso a mostra, em novembro e dezembro de 1983, realizou-se no Senac, que cedeu ao Banestado a sala de exposições da sua sede da Rua André de Barros, 750. A inauguração do foi feita por José Brandt Silva, que ocupava o cargo de presidente deixado por Léo de Almeida Neves. O sucesso foi retumbante e todos os jornais de Curitiba, e alguns de Ponta Grossa, Londrina e Maringá, noticiaram o acontecimento, que também repercutiu intensamente nas colunas sociais. Depois disso, na reunião de diretoria com o presidente, todos mostraram-se surpresos com o elogioso marketing realizado ao redor do nome do Banestado. E assim o SBAI continuou se repetindo todos os anos, até 1999, às vésperas da privatização do Banestado, tendo descoberto e projetado miríades de artistas plásticos, muitos dos quais depois tiveram projeção nacional. Em dezesseis anos de retumbante sucesso, a imprensa fez, literalmente, milhares de elogios ao Banestado, que se encontram hoje na internet, digitalizados, uma fonte quase inesgotável de informações, onde nos baseamos para o desenvolvimento deste texto.

          No ano seguinte, 1985, o II SBAI ocorreu na Galeria de Arte Banestado, criada por Christóvam Soares Cavalcante, presidente da Banestado Crédito Imobiliário, no andar térreo do prédio que pertencia àquela empresa conglomerada, sito à Rua Marechal Deodoro, 333, mesmo edifício onde funcionava a presidência da BCI. Cavalcanti convidou Vera Munhoz da Rocha Marques para gerir a nova galeria de arte (no que foi ajudada por Clarissa Lagarrigue) que funcionava orientada por um competente Conselho Administrativo. Vera Marques era uma respeitada socialite que, a pouco e pouco, transformou a Galeria Banestado num local de encontro de artistas e intelectuais. Grandes nomes como Poty e Dalton Trevisan, dentre outros igualmente importantes, ali se encontravam para ver as obras de quem estivesse expondo, e ficavam a discutir novidades e tendências culturais.

A partir de 1985 o assessor de Octacílio Ribeiro criou a base para a instalação do Programa de Cultura do Banestado. Uma vez mais a ideia foi aprovada por todos os diretores, e Octacílio, por força de uma portaria, recebeu a atribuição de Diretor para Assuntos de Cultura, paralela à de Diretor de Crédito Rural e Agroindustrial.

O Programa de Cultura incorporou o Coral Banestado, que já existia numa das empresas conglomeradas, regido por Amoz Camilo dos Santos, a quem deu condições de se expandir e aperfeiçoar, e liberdade para apresentar-se em eventos públicos e cívicos.

Constantino Viaro, diretor do Teatro Guaíra, tivera a ideia de dotar cidades do interior do Paraná com teatros, através do seu ambicioso Projeto Barracão. O Banestado apoiou o projeto, acolhendo a sugestão do Assessor para Assuntos de Cultura, que impôs a condição de que aqueles espaços fossem registrados com o nome de “Teatro Banestado”.

Em 1986 Francisco Souto Neto propôs a seu diretor a criação do Museu Banestado. A ideia não era nova, pois outros colegas tinham tentado sem sucesso criar um museu, mas colecionavam peças da história da instituição, tais como móveis que foram usados na primeira agência do Banestado, livros das primeiras atas das assembleias, e muitos objetos, documentos e fotografias. Foram eles Emerson Casseb, Sérgio Figueiredo, José Carlos Carreira Pequeno, Wilson Ganem e José Maria Antônio, dentre outros. O apoio de Aroldo dos Santos Carneiro, diretor de Serviços Administrativos, foi também fundamental para o coroamento do projeto. A Comissão de Implantação do Museu Banestado, presidida por Francisco Souto Neto, completou-se com Paulo Schultz Filho, Rosane Fontoura, Rodrigo Otávio Collere de Oliveira e Silmara Krainer Vitta. Segundo o jornal Todos Nós nº 114, de maio de 1987, o Museu Banestado foi inaugurado no dia 13 de fevereiro daquele ano, e Rosane Fontoura tornou-se a primeira administradora. Estiveram na inauguração o governador João Elízio Ferraz de Campos, David Carneiro, Celso da Costa Sabóia, Léo de Almeida Neves, José Brandt Silva e muitas outras personalidades.

O Assessor para Assuntos de Cultura do Banestado também editava um livro por mês, de autor paranaense, que era lançado na Galeria de Arte Banestado, assim mesclando a literatura com as artes plásticas. Tudo ocorria sem ônus para o Banestado, que teve a sua imagem pública enaltecida pelos mais importantes jornais, revistas e jornalistas da época. Autores como Sílvio Back, Anita Zippin, Poty Lazzarotto, Alice Ruiz e Helena Kolody ali lançaram livros, mas o Programa de Cultura apoiou principalmente literatos ainda desconhecidos, sem livros editados até então, mas dotados de grande talento e verve literária.

O Programa de Cultura do Banestado prestigiava todas as formas da arte: artes plásticas, música, literatura, cinema, teatro. Ao final do governo Richa, Álvaro Dias foi eleito governador. Octacílio Ribeiro, o único diretor do governo anterior mantido no governo eleito, foi convidado para assumir a presidência da Banestado Reflorestadora. Seu assessor Souto Neto acompanhou-o, com a concordância de Álvaro Dias. Para a Secretaria de Estado da Cultura foi convidado René Ariel Dotti. O Paraná iria entrar numa verdadeira “era de ouro” com Dotti capitaneando a cultura do Estado. O Programa de Cultura do Banestado, gerido por Francisco Souto Neto, continuou não apenas sem interrupção, mas ampliou-se. Realizou-se o IV SBAI com sucesso crescente, porém em março de 1988, ao completar um ano o Governo Álvaro Dias, houve uma grande reformulação política em vários níveis. Octacílio Ribeiro “caiu” do Banestado e foi para uma diretoria regional do Banco do Brasil em Curitiba. Terminava assim a parceria de cinco anos entre ele e Souto Neto.

Após três dias em meio à “tempestade”, Souto foi chamado pelo vice-presidente do Banestado, Edisson Eleri Faust, que era também presidente da Banestado Crédito Imobiliário, que o convidou a participar da sua assessoria, não mais como assessor pessoal, nem técnico, mas exclusivamente como “Assessor para Assuntos de Cultura”. Faust resolvera não ocupar o seu gabinete de presidente da BCI no 7º andar do prédio sito à Av. Marechal Deodoro, 333 (em cujo andar térreo funcionava a Galeria de Arte Banestado), mas apenas o gabinete de vice-presidente do Banestado no Conglomerado Financeiro à Rua Máximo João Kopp, no bairro de Santa Cândida. Ofereceu então ao Souto Neto o seu gabinete no prédio da BCI, onde estavam locadas a secretária Flávia Moreira Salles e a auxiliar Cecília Maria Palhares.

Faust conhecia o Programa de Cultura, pois costumava comparecer a exposições e lançamentos de livros, e deu “carta branca” ao novo assessor para ampliar suas próprias atribuições. A primeira proposição do assessor foi uniformizar os regimentos internos das Galerias de Arte Banestado de Curitiba, Ponta Grossa e Londrina, todas orientadas por conselheiros compostos de personalidades ligadas à vida cultural de cada uma das cidades. Paralelamente, pediu permissão para estudar as possibilidades de inaugurar novas galerias de arte em Maringá e Cascavel.

Alguns meses depois, naquele mesmo ano, em meio a uma nova tempestade política, “caiu” Edisson Faust da vice-presidência do Banestado. No fim mesmo dia, Souto Neto foi chamado pelo presidente do Banestado, Carlos Antônio de Almeida Ferreira, para integrar a sua assessoria. “Dr. Almeida”, como passou a ser conhecido, formou uma “dobradinha cultural” com o Secretário de Estado René Ariel Dotti e, nos três anos que se seguiram do Governo Álvaro Dias, o Paraná conheceu um ímpeto cultural jamais antes visto e que nunca mais se repetiria em tal intensidade. O assessor prosseguiu desenvolvendo o Programa de Cultura do Banestado e instituiu um colegiado de experts como componentes de uma “comissão para aquisição de obras de arte”, com o propósito de depurar a compra de telas para as paredes de novas agências. O SBAI – Salão Banestado de Artistas Inéditos chegou a ocupar o lugar do oficial Salão dos Novos (da Secretaria de Estado da Cultura) nos anos em que este entrou em recesso, e pelo seu alto padrão de excelência foi várias vezes comparado ao Salão Paranaense, segundo registros da imprensa da época, agora digitalizados e na internet.

Ao terminar o Governo Álvaro Dias, Heitor Wallace de Mello e Silva foi indicado pelo novo governador, Roberto Requião, para assumir a presidência do Banestado. Numa cerimônia realizada no Museu Banestado no princípio de 1991, o novo presidente inaugurou o retrato do seu antecessor Dr. Almeida. Em seu discurso, Souto Neto informou que se aposentaria dentro de três meses e pediu ao novo presidente Dr. Heitor que mantivesse o Programa de Cultura do Banestado, pela importância que tinha o mesmo no cenário paranaense.

Ao aposentar-se em junho de 1991, Francisco Souto Neto foi sucedido por Tina Camargo, que ficou somente alguns meses no cargo, tendo sido substituída por Maria Amélia Junginger como Assessora para Assuntos de Cultura. Esta realizou um SBAI – Salão Banestado de Artistas Inéditos e em 1992 aceitou o convite do governador para dirigir o Museu de Arte Contemporânea, tendo sido substituída como assessora por Vera Munhoz da Rocha Marques, que também realizou um Salão Banestado. Contudo, o Programa de Cultura começava a desabar, principalmente porque no ano seguinte o novo presidente do Banestado, Luiz Antônio Fayet, suspendeu os Salões Banestado e pretendeu transformar a Galeria de Arte num espaço para exposições apenas étnicas. Felizmente a imprensa interveio, assim como alguns políticos, explicando a Fayet a importância daquele espaço destinado às artes plásticas. Desgostosa com os retrocessos, Vera Marques aposentou-se e Domício Pedroso ocupou seu lugar, permanecendo no cargo também por pouco tempo. Mais uma mudança durante o Governo Requião afastou Fayet da presidência do Banestado e colocou Domingos T. Murta Ramalho em seu lugar. A esse tempo, a  Galeria Banestado transformou-se em Espaço Cultural Banestado, atendido por Clarissa Lagarrigue.

No Governo Jaime Lerner assumiu o posto de responsável pelo novo Espaço Cultural Taís Horbatiuk, que conseguiu realizar o XII e XIII Salões Banestado de Artistas Inéditos e depois foi sucedida por Tânia Dallegrave Góes e Ana Cristina Rank, que inauguraram com sucesso o XIV SBAI em dezembro de 1998. Nesta derradeira edição, foram convidados para atuar como componentes da comissão julgadora Dulce Osinski, Francisco Souto Neto, João Henrique do Amaral, Lirdi Jorge e Nilza Procopiak.

Em 2000 o Banestado foi dolorosamente privatizado por Jaime Lerner, na campanha de privatizações do presidente Fernando Henrique Cardoso. Terminava a gloriosa caminhada do Banco do Estado do Paraná, que desde 1928 vinha ajudando a desenvolver e construir o “Estado dos pinheirais”, e que nas décadas de 80 e 90 também impulsionou admiravelmente a cultura do Paraná no seu sentido mais amplo.

As novas gerações já não sabem o que foi e o que significou o Banestado. Mas a grandeza e a dedicação dos que trabalharam na empresa com amor e respeito ficarão perpetuadas nos registros jornalísticos para as gerações futuras. Todos, dos diretores aos contínuos, são legítimos representantes da instituição que impulsionou o panorama industrial, agrícola e cultural do Paraná, ajudando a prover o nosso Estado dos alicerces que possibilitaram elevá-lo ao estágio em que ora se encontra, motivo de orgulho dos paranaenses e de admiração e respeito de todos os brasileiros.

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3ª participação:

A HISTÓRIA DAS TELAS PERDIDAS DOS PRESIDENTES DO BANESTADO

Autor: Francisco Souto Neto
Concorreu com o pseudônimo de Le Lapin Agile

O Banco do Estado do Paraná S. A., depois popularizado como Banestado, foi fundado em 1928 por Affonso Alves de Camargo, presidente do Estado do Paraná, que era como se denominava o título do governo estadual na época. Para presidir a nova instituição financeira, Affonso Camargo convidou o coronel Pretextato Pena Forte Taborda Ribas. O banco começou a desenvolver-se, enquanto se sucediam os presidentes, interventores federais de 1930 a 1947, e a partir de 12 de março de 1947, os governadores do Estado do Paraná. Os presidentes do Banestado foram sendo convidados conforme sopravam os ventos da política. O segundo presidente da instituição foi o historiador David da Silva Carneiro (de 1930 a 1932), seguido por Gustavo A. de Carvalho, Bertholdo Hauer, Ivo Abreu de Leão, Rivadávia de Macedo, Arcésio Correia Lima, Felizardo Gomes da Costa, e assim sucessivamente, num total de exatos 40 presidentes de 1928 até o ano 2000.

Na década de 40, oito presidentes do Banestado retratados por De Bona Não se sabe exatamente em que ano, mas durante a década de 40, alguém, cujo nome lamentavelmente se perdeu no tempo, sugeriu ao então presidente do banco que mandasse pintar retratos a óleo dos seus antecessores. A ideia foi aprovada e os trabalhos encomendados ao mais importante retratista da época, Theodoro De Bona. O interventor no Estado do Paraná era Manoel Ribas, que apoiou a preservação da memória dos primeiros presidentes do Banestado e seus sucessores.
De Bona estava com aproximadamente 40 anos e pintou magníficos retratos que enriqueceram uma das paredes da presidência do Banestado.

O desaparecimento das telas – Até os primeiros anos da década de 60, os oito retratos foram admirados por quem tinha o privilégio de entrar naquele gabinete. Segundo alguns, numa das mudanças de governo, o novo presidente da instituição bancária, decidido a modernizar o seu ambiente de trabalho, teria mandado retirar os quadros da parede, e a partir de então as pinturas não foram mais vistas. Outros afirmam que quando a presidência do banco mudou-se do histórico prédio da Rua XV de Novembro para o moderno edifício na Rua Monsenhor Celso nº 256, a alguns metros da Praça Carlos Gomes, os quadros não foram para a nova sala ocupada pelo presidente. Seja como for, diz o velho ditado “longe dos olhos, longe do coração”, e assim os funcionários começaram a se esquecer das telas que estariam guardadas em algum depósito.
Na ciranda da vida e da política, sucederam-se governadores e alternaram-se diretores e presidentes do Banestado.

Década de 80, o jornal Todos Nós e as telas extraviadas – Exatamente na metade da década de 80, o general João Figueiredo completava a transição entre a ditadura militar e o início da redemocratização. No Paraná José Richa era o primeiro governador eleito por sufrágio universal após o período dos governadores escolhidos pelo Poder Militar. O jornal Todos Nós, de circulação mensal, tornara-se o veículo da divulgação de assuntos envolvendo o Banestado e seus funcionários.
Graças a muitos exemplares que guardei, principalmente da década de 80, foi possível rastrear a história das telas de De Bona, que ficou preservada no Todos Nós nº 111, ano XII, de setembro de 1986, página 10. Na ficha técnica da edição, consta que a referida publicação tinha como coordenador Ricardo de Quadros Cravo, gerente do departamento de marketing João Máximo Salomão Netto, editor Tadeu Petrin, redatores Josiliano Mello Murbach e Silmara Krainer Vitta, fotógrafo Roberto A. Von Der Osten e diagramação do mesmo editor Tadeu Petrin. O título da matéria era “Museu Banestado começa com De Bona”, numa narrativa feita por Francisco Souto Neto, então assessor do Diretor de Crédito Rural e Agroindustrial, e presidente da Comissão de Implantação do Museu Banestado. Segundo o Todos Nós, sabia-se da existência de vários quadros de Theodoro de Bona que retratavam os primeiros presidentes do Banestado, que deveriam estar esquecidos em algum local não sabido da empresa. O Departamento de Patrimônio, que mantinha o controle e o registro das obras de arte, pelo menos oficialmente desconhecia a existência das telas. Rumores alertavam que as obras estiveram guardadas durante muito tempo na casa de máquinas dos elevadores do edifício na Rua Monsenhor Celso que, por muitos anos, abrigou a diretoria e alguns órgãos da Direção Geral do Banestado. Possivelmente ao final de alguma gestão, ou talvez com a transferência ou aposentadoria dos funcionários que tinham conhecimento de tais obras, ficaram elas esquecidas e abandonadas à sua própria sorte.
Ao ser inaugurado o Centro Administrativo Banestado no bairro de Santa Cândida, em 24 de novembro de 1978, os diversos setores foram sendo aos poucos transferidos para o novo endereço. Providencialmente, as oito telas de De Bona também tinham sido enviadas para lá, acondicionadas numa grande caixa de papelão, mas sem maiores referências, e ficaram sem identificação em algum depósito.

O achado em 1986 e o estado das obras – Segundo a reportagem do Todos Nós, no começo de 1984 Tadeu Petrin, da Coordenadoria de Marketing, teria comentado com Francisco Souto Neto, assessor da DCRER e também assessor para Assuntos de Cultura, que as telas talvez estivessem na caixa-forte da empresa conglomerada BABS. Souto pediu a Petrin que procurasse averiguar. Este fez uma pesquisa visual que resultou infrutífera.
No dia 12 de junho de 1986 – coincidentemente véspera do aniversário de Theodoro De Bona – um funcionário da BABS, Otto Florentino, mexendo ao acaso em velhas caixas de papelão no depósito do seu setor de trabalho, encontrou as oito telas. Identificando-as e presumindo seu alto valor, comunicou o fato ao Dr. Reis, presidente da BPDS, que mandou levá-las para seu gabinete com o propósito de salvá-las do abandono. Diz a reportagem que logo a notícia chegou aos ouvidos de Francisco Souto Neto que, como presidente da Comissão de Implantação do Museu Banestado, requisitou-as para comporem o acervo do futuro museu, no que foi prontamente atendido pelo Dr. Reis. As telas estavam danificadas, algumas furadas e outras rasgadas, e várias molduras quebradas, faltando-lhes pedaços.
As obras não estavam catalogadas porque, obviamente, delas não se tinha conhecimento oficial. O Departamento de Patrimônio, que mantinha rigoroso controle e documentação fotográfica das obras de arte do Banestado, não sabia da existência das telas de De Bona porque há mais de duas décadas estavam elas relegadas ao esquecimento. Se houve insensibilidade neste episódio, melhor seria atribuí-la aos fantasmas do passado, naquele momento em que um presidente do Banestado, mandando retirá-las da parede, condenou-as ao olvido.
Ao Todos Nós de setembro de 1986, Souto Neto declarou ao final da reportagem: “O estado atual das telas demonstra o alto grau de ignorância, e a falta de educação e respeito das pessoas em relação às obras de arte. Resta, entretanto, a satisfação que estou tendo pela oportunidade de resgatá-las do abandono e do esquecimento aos quais estiveram relegadas nas últimas décadas, e pela possibilidade de expô-las permanentemente ao público, através do futuro Museu Banestado”.

Restauração e repercussões – Os trabalhos de restauro das pinturas foram entregues à professora Maria Ester Teixeira Cruz, do ateliê de restauros do Solar do Barão, que fez a substituição dos chassis infestados de cupins, nivelamento das telas, reentelamento devido ao descolamento de camadas das pinturas, limpeza, retoques e camadas de proteção, sem falar na recuperação de diversos furos e rasgões que as obras apresentavam. Também as molduras foram reconstituídas, limpas e pintadas.
Absolutamente todos os jornais de Curitiba comentaram o resgate das telas pelo Banestado, e os principais articulistas referiram-se elogiosamente aos acontecimentos: Aramis Millarch em sua coluna diária Tabloide, do jornal O Estado do Paraná, David Carneiro em sua coluna também diária Veterana Verba, na Gazeta do Povo, e muitos outros. Observando o entusiasmo da diretoria com o marketing favorável que a imprensa fazia ao redor do acontecimento, o assessor Souto Neto sugeriu ao seu diretor completar a galeria de retratos pintados de todos os ex-presidentes do Banestado, até Léo de Almeida Neves, que era o antecessor do então atual Nicolau Elias Abagge. A ideia foi aprovada e Souto Neto começou a pesquisar quais seriam os retratistas que dariam sequência à obra iniciada por De Bona. A escolha recaiu sobre Antonio Macedo (autor dos retratos, no Palácio Iguaçu, de sete governadores do Paraná), e Vilmar Lopes, um jovem e promissor artista plástico.

A inauguração do Museu Banestado – É ainda o Todos Nós que preserva a história da inauguração do nosso Museu, na sua edição nº 114 de maio de 1987, em reportagem intitulada “Inauguração do Museu Banestado marca o início da preservação”. Originalmente instalado no 11º andar do edifício sito à Rua Monsenhor Celso nº 151, constava de três salas para exposição do acervo, e uma para mostras temporárias. Registra em seu segundo parágrafo: “O acervo começará pequeno e singelo, mas caberá ao seu Conselho Administrativo e à gerente do Museu, Rosane Fontoura, traçar diretrizes e planos quanto à ampliação desse acervo, projetar exposições e mostras temporárias, dimensionar as suas atividades e eventos culturais e trabalhar pela sua ampliação no 12º andar, dotando-o de um pequeno teatro e biblioteca, transformando o local em ponto de encontro da intelectualidade paranaense. Desde a sua inauguração o Museu exibe em sala especial roupas e objetos pessoais que pertenceram a Benjamim Constant, e que fazem parte do acervo do historiador David Carneiro, por este emprestados ao Museu Banestado”. A maior atração foi a galeria dos ex-presidentes, que magnetizava as atenções de todos. Artistas contemporâneos também doaram obras para o acervo do Museu, dois deles vencedores de Salões Banestado de Artistas Inéditos, que foram Rubens Faria Gonçalves e Jandira Martini. Ficou ainda o registrado no Todos Nós que o Museu Banestado instituiu uma cerimônia que se tornou tradição a cada mudança de titular da presidência do Banestado. Assim, Nicolau Elias Abagge presidiu o banco de 1º de janeiro de 1986 a 16 de março de 1987, quando transmitiu o cargo ao novo presidente João Carlos Finardi. Foi então pintado o retrato de Abagge, que Finardi inaugurou no último dia de agosto do mesmo ano. Essa cerimônia reuniu enorme número de políticos de partidos diferentes, até mesmo um ex-governador.

De 1987 a 2000 – Finardi presidiu o Banestado de 17 de março de 1987 a 30 de março de 1988, e seu sucessor foi Carlos Antonio de Almeida Ferreira que em novembro inaugurou o retrato do antecessor. A solenidade foi um marcante acontecimento com políticos, intelectuais e funcionários do banco, repercutindo em todos os jornais e revistas. As cerimônias das inaugurações dos retratos continuaram ocorrendo de administração para administração. Agora instalado no 2º andar da histórica agência da Rua XV de Novembro nº 340, o Museu estava administrado por Maria Lúcia Gomes. Heitor Wallace E. de Mello e Silva sucedeu a Almeida Ferreira, depois assumiram respectivamente Sérgio Elói Druszcz, Norton Macedo Correia, Luiz Antônio de Camargo Fayet e Domingos Tarço Murta Ramalho. A este momento, o Banestado encontrava-se prestes a sucumbir, ferido de morte por aqueles que o exauriram com má gestão, vilipendiaram e roubaram. Os dois últimos presidentes do Banestado, Manoel Campinha Garcia Cid e Renhold Stephanes, não chegaram a ser retratados...

Um salto no tempo – A história das telas não termina aqui e, infelizmente, não teve final feliz. Aprendemos, duramente, que nada é para sempre, e nem mesmo o glorioso Banestado, forte e sério, resistiria aos assaltos que os corruptos lhe infringiram, e à dureza e insensatez da política de privatização do governo estadual aliado ao federal. Acabou-se o Banestado e também o seu museu que era o depositário do nosso passado e nossas lembranças. Quando o Banestado foi comprado por preço aviltante pelo Banco Itaú em 17 de outubro de 2000, o Paraná cobriu-se de luto.
Qual teria sido o destino do acervo do Museu Banestado, que foi formado por doações de funcionários, ex-funcionários e de outros cidadãos sem qualquer vínculo com o banco, mas que desejavam ver aqueles objetos preservados num museu? Uma pesquisa na internet permitiu-nos reconstituir os prováveis caminhos percorridos pelo acervo do nosso Museu ao longo dos últimos treze anos, até o corrente 2013. Ademais, lembremo-nos de que o acervo do Museu seria insignificante se comparado à totalidade do acervo do Banestado, este não menos do que monumental e simplesmente incalculável. E tudo se foi de roldão.
Em princípio o Banco Itaú pretendeu entregar ao Paraná o acervo de arte do Banestado em comodato pelo prazo de dez anos. Isto significaria “emprestar” as obras ao Estado durante uma década, e depois tomá-las a si e fazer delas o que bem entendesse. A intectualidade paranaense protestou fortemente para que as obras de arte permanecessem para sempre no Paraná, e o Itaú, por fim, decidiu doar o acervo ao nosso Estado.  O idealizador do Museu Banestado sugeriu que o acervo deste, por ser constituído de objetos exclusivamente doados, fosse devolvido aos  doadores. O Itaú desconsiderou a ideia.
A cerimônia da entrega do acervo foi feita no Palácio Iguaçu e entendeu-se que o NovoMuseu o receberia. NovoMuseu (assim mesmo, ambas as palavras juntas) foi o nome dado à instituição por Jaime Lerner, que inaugurou a obra nos estertores do seu governo. Alguns dias depois, o novo governador Roberto Requião alterou o nome para Museu Oscar Niemeyer, hoje popularmente conhecido como “Museu do Olho”.
Porém o ex-NovoMuseu recebeu apenas as obras (mas não todas!) de artistas mais contemporâneos, ao passo que as de autores anteriores à década de 60 iriam para o Museu de Arte do Paraná, e as peças com sentido histórico seriam destinadas ao Museu Paranaense. Passaram-se os anos e os acervos, tanto do Banestado quanto o do Museu, não mais foram vistos.

Indagações em 2013 – É possível encontrar na internet o endereço certo para se conhecer em profundidade a história do Museu Banestado, desde a sua criação, ilustrada com recortes de jornais da época. Há fotografias da inauguração do museu e dos quadros de todos os presidentes do Banestado, recortes das campanhas para as doações, o cartaz-convite para o ato inaugural, comentários da imprensa, elogios, críticas, passando pelas várias solenidades que lá se realizaram. A partir do ano 2000 há recortes sobre os desenganos do Governo Lerner e o “escândalo Banestado”, com o link que leva ao extenso Relatório da “CPI do Banestado”. Essa página sobre o Museu Banestado alcança o ano de 2013 e se encerra com notícias ainda correntes e indagações que deixam em aberto o assunto do infortúnio do Banestado e seu museu. Este não é assunto encerrado, pois há muitas perguntas que ainda terão que ser respondidas.

O endereço para pesquisa – Basta escrever em “Pesquisas Google” as seguintes palavras: “expressão & arte” + “galeria de todos os presidentes do banestado”. Assim mesmo, entre aspas e letras minúsculas, com o sinal de “mais” entre as duas frases... e sem errar nenhuma das letras. Feito isto, o Google levará o interessado ao seu destino, que é conhecer algumas curiosidades, certos detalhes e muitas pendências que ainda pesam sobre o Museu Banestado e o acervo de arte do próprio Banco do Estado do Paraná.
Tudo isso envolve a história pessoal de cada um de nós, afabeanos e ex-funcionários daquela querida instituição, e reforça o nosso desejo coletivo de fazer com que recordações possibilitem que as pequenas histórias do Banestado se tornem História do Paraná e se perpetuem para muito além das nossas simples e passageiras existências.


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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Livro LUAR DE SANGUE, de Dione Mara Souto da Rosa

Livro LUAR DE SANGUE, de Dione Mara Souto da Rosa
 
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Livro LUAR DE SANGUE
Dione Mara Souto da Rosa
Novo Século - São Paulo (2013)
 
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Capa:
 
 
 
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Página 1:
 
 
 
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Página 3:
 
 
 
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Página 4:
 
 
 
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Página 5:
 
 
 
In memoriam de Ivone Souto da Rosa, Edith Barbosa Souto e Dulci Col da Rosa, respectivamente mãe, avó e pai. Três inesquecíveis pessoas que deixaram saudades.
 
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Página 7:
 
Agradecimentos
 
 
 
Especialmente a Francisco Souto Neto, meu tio e padrinho, por sempre acreditar em mim. A minha eterna gratidão ao meu guru literário.
A Lia Helena Shaeffer Salvador, minha mestra - o meu agradecimento pelos ensinamentos no decorrer desse tempo de muito aprendizado.
 
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Página 13:
 
Prólogo
 
 
 
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Página 14:
 
 
 
(O Prólogo continua... no próprio livro)
 
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2ª orelha:
 
 
 
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2ª capa ou contracapa:
 
 
 
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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

VISCONDE DE SOUTO, FAZENDA BELA VISTA E CAPELA MAYRINK, por Francisco Souto Neto e Lúcia Helena souto Martini.

 
 
Livro: REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO
R.IHGB, Rio de Janeiro, a. 173, n. 455, pp 11-300, abr./jun. 2012
Assunto: Visconde de Souto, Fazenda Bela Vista e Capela Mayrink
Por: Francisco Souto Neto e Lúcia Helena Souto Martini
Páginas: 73 a 89
Observação:
A publicação chama-se "Revista..." mas é, efetivamente, um livro, tanto na forma quanto no conteúdo. Circulando regularmente desde 1839 (portanto, com quase 174 anos), ainda época do 1º Reinado, é uma das mais longevas publicações do mundo ocidental. O artigo de Francisco Souto Neto e Lúcia Helena, é parte do livro Visconde de Souto - Ascensão e "Quebra" no Rio de Janeiro Imperial, ainda inédito. Adiante, vai a cópia fiel do texto publicado e, depois do mesmo, serão encontradas as páginas de 73 a 89 da própria "Revista".
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Título:
VISCONDE DE SOUTO, FAZENDA BELA VISTA E CAPELA MAYRINK
Autores:
Francisco Souto Neto
Lúcia Helena Souto Martini
Resumo
Narra episódios da biografia de António José Alves Souto, visconde de Souto (1813-1880), primeiro banqueiro privado no Brasil. Descreve a Fazenda Bela (ou Boa) Vista, comprada pelo visconde de Souto do espólio do conde de Gestas. Registra a história da construção de uma capela em 1850, a mando do visconde, hoje conhecida como Capela Mayrink, nome do seu último proprietário. Conta a trajetória da capela através dos séculos XIX, XX e XXI, passando por sua desfiguração e decadência, e pela restauração e preservação nos dias atuais.
Palavras-chave: Visconde de Souto ; Fazenda Bela Vista ; Fazenda Boa Vista; Capela Mayrink; Floresta da Tijuca; Quebra do Souto

Abstract
António José Alves Souto, viscount of Souto, born in Portugal, was the first private banker in Brazil. At the Tijuca he owned a farm, “Bela Vista”, sometimes called “Boa Vista”, where he ordered the construction of a little chapel, now a days known as “Capela Mairynk”, beeing Mairynk the family name of its last owner.
Key-words: Viscount of Souto; Capela Mayrink; Fazenda Bela Vista; Fazenda Boa Vista; Tijuca; bankrupt

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VISCONDE DE SOUTO, FAZENDA BELA VISTA E CAPELA MAYRINK





     O português António José Alves Souto, visconde de Souto (Porto 1813 – Rio de Janeiro 1880), foi o primeiro banqueiro particular de que se tem notícia no Brasil. Residia no bairro carioca de São Cristóvão, na "Chácara do Souto", localizada na Rua do Campo Alegre (hoje Ibituruna). Num dos extremos da propriedade mantinha um jardim zoológico, cuja entrada se fazia pela Rua Nova do Imperador (agora Mariz e Barros) por um caminho que ganhou o nome de Rua do Souto (atualmente Senador Furtado). Sua casa bancária, A. J. A. Souto & Cia., popularmente conhecida como Casa Souto, que rivalizava com o Banco do Brasil em carteira de depósitos, localizava-se na Rua Direita (hoje Primeiro de Março). Diversos autores afirmam que a Casa Souto foi a primeira casa bancária do país. Um deles é Pedro Calmon, na sua consistente obra em sete volumes, História do Brasil, que registra: "[...] Souto, Dovey & Benjamin, depois denominada Alves Souto & Cia., foi a primeira casa bancária do Rio de Janeiro, lembraria ‘O Futuro’ de 15 de novembro de 1862". (CALMON, 1963, v. 5, ed. 2, p. 1731).



O Visconde de Souto. OST de A. R. Duarte, 1890 (detalhe). Acervo da
Beneficência Portuguesa – Rio de Janeiro. Foto por gentileza de Ney O. R. Carvalho.


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Adolfo Morales de los Rios Filho, no livro Rio de Janeiro imperial, ao referir-se aos bancos e casas bancárias criados durante o Segundo Reinado, escreveu:
Bastante importante foi o estabelecimento bancário denominado "Casa Souto", que girava sob a razão de A. J. Alves Souto & Cia. Fora fundada em 1834, pelo português Antônio Alves Souto, e estava instalada na Rua Direita. Subsistiu até 1864. (MORALES DE LOS RIOS FILHO, 1941, p. 206).
     A Casa Souto foi fundada em 1833, não em 1834, e nessa época não era ainda conhecida pelo seu nome popular. 1834 foi o ano em que, por sugestão de Joseph Maxwell, Souto associou-se a Dovey, criando a empresa Souto & Dovey. No ano seguinte, com a entrada de Benjamin na sociedade, constituiu-se a Souto, Dovey & Benjamin, na qual, como na anterior, Souto era majoritário. A essa época, embora ainda corretor e não banqueiro, Souto começou a realizar operações bancárias, mas só em 1838, com a saída de Dovey e Benjamin da sociedade, o escritório passou a ser conhecido como "casa bancária Souto", que serviria de modelo a todas as outras casas congêneres prestes a nascer.
     De 1838 a 1858 a Casa Souto funcionou como "um banco de um homem só". Machado de Assis, afirmou em A Semana de 25 de junho de 1894, citado por Gustavo Franco no livro A Economia em Machado de Assis – O Olhar Oblíquo do Acionista:
Conheci um banqueiro... Era no tempo em que um homem só, ou com outro, podia ser banqueiro, sem incomodar acionistas, sem gastar papel com estatutos, sem dividendos, sem assembléias. Simples Rothschilds. Era banqueiro e voou na tormenta de 1864. (FRANCO, 2008, p. 165).
     Ao falir em 10 de setembro de 1864, episódio historicamente conhecido como "Quebra do Souto" ou "Crise do Souto", arrastou outros bancos e cerca de cem empresas. Segundo Ney O. R. de Carvalho...
...o visconde de Souto foi o protagonista central da mais grave crise econômica do império. A falência de sua casa bancária, com perto de 10.000 credores e passivo equivalente à metade da dívida interna bruta da época, foi um terremoto econômico que abalou seriamente a praça do Rio de Janeiro. (CARVALHO, 1995, p. 54).
     A mando de dom Pedro II, uma comissão de inquérito foi instituída para apontar as causas da Quebra do Souto, tendo sido o visconde inocentado em 1865 e formalmente reabilitado em 1869. Sua falência foi um fato tão inesperado que Arthur Azevedo escreveu: "Supor naquele tempo que o Souto quebrasse era o mesmo que acreditar na quebra do Pão de Açúcar". (AZEVEDO, 1974, p. 113-114).
     Desde sua falência, o visconde de Souto foi citado, em maior ou menor profundidade, em cerca de seiscentos livros, quer como personagem do seu tempo, quer como protagonista da Quebra do Souto. Dentre as centenas de autores dessas obras, vale mencionar Afonso Arinos, Arthur Azevedo, barão do Rio Branco, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Manes Bandeira, Eduardo Bueno, Gilberto Freire, José de Alencar, Lima Barreto, Luís Viana Filho, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Ney O. R. Carvalho, Pedro Calmon, Raymundo Faoro, Ruy Barbosa, Sérgio Buarque de Holanda, Teófilo Ottoni, Victor Viana, visconde de Mauá, Werneck Sodré, Wilson Martins.
     No ano de 1850, então rico e poderoso, o comendador, depois visconde de Souto, comprou uma fazenda de café no Alto da Boa Vista, local hoje ocupado pela Floresta da Tijuca. Já se tratava de uma propriedade histórica que pertencera a Aymar Marie Jacques Gestas, o conde de Gestas (França 1786 – Niterói 1837). Antes de Gestas, essas terras eram parte da sesmaria de Salvador Correia de Sá e que, por sucessão, passaram em 1568 aos viscondes de Asseca, família em que permaneceram por cerca de dois séculos e meio.
     Affonso d’Escragnolle Taunay, no livro História do café no Brasil, revela:
Gestas saíra da França na primeira infância levado por uma tia, também emigrada, para fugir à guilhotina: a condessa de Roquefeuil. Vieram ambos para o Rio de Janeiro onde D. João VI os acolheu com grande simpatia e ficaram no Brasil até a morte. O conde de Gestas e sua tia foram os primeiros fazendeiros de café na Tijuca e ali tiveram assaz grandes lavouras. (TAUNAY, v. 5, t. III, 1939, p. 84).
     O livro O Sol do Brasil, de Lília Moritz Schwarcz, confirma as visitas de dom João VI à Fazenda Bela Vista: "Acima da Cascatinha, o conde de Gestas – um amigo de Taunay – plantava café e frutas. Sua residência bem cuidada recebia frequentes visitas de D. João, que parecia gostar da região". (SCHWARCZ, 2008, p. 267). O historiador Carlos Manes Bandeira, na obra Parque Nacional da Tijuca, conta que anos depois também dom Pedro I passou a frequentar a Fazenda Bela Vista:
[...] O conde [de Gestas] mandou vir da Normandia vacas-leiteiras e mudas de fruteiras, produziu manteiga e cremes frescos (produtos extremamente raros no país), inclusive o creme de chantilly. Plantou e colheu magníficos morangos, vindos dos morangais de Plogastel (França), aclimatou macieiras, pereiras e vinhas, também de Plogastel. [...] O imperador d. Pedro I e a imperatriz d.ª Leopoldina eram amigos do conde e frequentavam o seu sítio, motivo pelo qual o conde mandou colocar um alto mastro sobre um morro lateral à Pedra do Conde, onde fazia subir a bandeira Imperial Brasileira todas as vezes em que os imperadores ali chegavam. O local ficou conhecido como "Alto da Bandeira" ou "Morro da Bandeira", como permanece até hoje. [...]. (BANDEIRA, 1994, p. 68).
     Em 13 de maio de 1823, Gestas casara-se com Alexandrine Françoise Maria du Plessis Parscault, marquesa de L’Espéroux, que se tornou condessa de Gestas pelo casamento. No dia 17 de abril de 1824, ano em que comprou a ilha do Viana, nasceu o filho Pèdre-Marie-Aymar, o futuro segundo conde de Gestas e marquês de L’Espéroux. Os imperadores foram seus padrinhos de batismo.
     No ano de 1830, o conde de Gestas pediu demissão do seu cargo de cônsul geral da França no Rio de Janeiro com o propósito de se dedicar inteiramente à Fazenda Bela Vista. Entretanto, contrariando seus próprios planos, passou a interessar-se muito mais pela ilha do Viana, onde mandou erguer armazéns, oficinas e estaleiros para a construção de pequenas embarcações. Erigiu também ali uma residência para si e sua família. Em 27 de setembro de 1835 morreu a tia, condessa de Roquefeuil. Desgostoso, o conde de Gestas fechou a casa-sede da Fazenda Bela Vista e foi residir definitivamente na Ilha do Viana com a esposa e o filho.
     Em 28 de julho de 1837, Gestas morreu afogado num naufrágio quando rumava para a ilha onde residia. A Fazenda Bela Vista, às vezes também chamada de "Boa Vista", foi leiloada por Frederico Guilherme, mas não há registros de quem a tenha arrematado. O documento seguinte é datado de 1850 e comprova ter António José Alves Souto adquirido essa mesma propriedade, mas nele não consta o nome de algum intermediário entre Gestas e Souto.
     Há outros autores que, face à ausência de documentos mais específicos, afirmam que a fazenda (ou fazendola, chácara, ou sítio – conforme denominações usadas pelos historiadores), após alguns anos de tramitação do inventário, teria passado do espólio de Gestas diretamente ao Souto.
     Em 1850 a residência estava bastante deteriorada, mas Souto mandou restaurá-la para ali passar os domingos com a família.
[...] A propriedade compunha-se de casa de vivenda; casa assobradada para pretos; moinho d´água para moer trigo; casa para preparação do café com estufa; máquina de descascar, com jogo de seis pilões, movido por água; uma plantação de 30.000 pés de cafeeiros, para cima, porém que necessitam de trato; pomar, pessegueiros, amoreiras e macieiras. (FERREZ, 1972, p. 49).
     Desde a vinda de dom João VI com a corte portuguesa em 1808, o Rio de Janeiro passara a expandir-se. As matas circundantes começaram a ser devastadas, e as árvores derrubadas para servir de lenha e carvão. A flora das encostas das montanhas também foi destruída para o plantio de café. Com isso ocorreu um sério comprometimento das nascentes dos rios. Preocupado com a falta d’água que afetava a capital imperial, em 1861 dom Pedro II mandou reflorestar toda a região desmatada, pondo fim às plantações de café e dando origem à hoje conhecida Floresta da Tijuca, a maior floresta do mundo em área urbana. Foi a primeira reconstituição da cobertura vegetal com espécies nativas de que se tem notícia no Brasil, uma louvável atitude para um tempo em que a palavra "ecologia" ainda não havia sido criada.
     A erradicação da cafeicultura e o reflorestamento da região não representariam grande prejuízo para o Souto, cuja principal fonte de renda era a casa bancária de sua propriedade, a Casa Souto. A Fazenda Bela Vista passou a ser então uma propriedade para lazer e entretenimento da família do visconde e seus amigos.
     Manes Bandeira empreendeu estudos a respeito das dimensões da Bela Vista, afirmando, com base num mapa estampado em Pioneiros da cultura do café na era da independência (FERREZ, 1972, p. 56-57), que a área da fazenda do conde de Gestas era de 11 alqueires fluminenses e 5/8, as mesmas medidas das terras compradas décadas depois pelo conselheiro Mayrink, o último proprietário. Segundo Manes Bandeira, isso prova tratar-se da mesma fazenda que passou, sem alterações nas suas dimensões, pelo visconde de Souto, conde de Bonfim, barão de Mesquita e Francisca Elisa de Mesquita (BANDEIRA, 1994, p. 67). A Fazenda Bela Vista estendia-se desde acima da queda da Cascatinha da Tijuca até o monte hoje conhecido como Pedra do Conde, situado ao norte, e expandia-se pelo lado oeste até a construção denominada "o Barracão", agora sede administrativa do Parque Nacional da Tijuca.
     O mapa referido por Manes Bandeira e Ferrez, mostrando o Alto da Tijuca e arredores, cujo título é Mappa do sitio do Sr. Souto, pertence ao acervo do Arquivo Nacional. Desenhado e assinado por J. A. R. Pereira, Rio de Janeiro, 1855, dezoito anos após a morte de Gestas, mostra que a Estrada do Imperador se bifurcava em "Caminho para a caza de Souto" e "Caminho para a caza de Taunay". Somente em 1888 a propriedade foi vendida ao conselheiro Mayrink, o que vem a comprovar que as palavras "Terrenos pertencentes ao conselheiro Francisco de Paula Mairinck [sic]" escritas no mapa sobre a área da Fazenda Bela Vista, foram acrescentadas cerca de 40 anos depois da feitura do documento.
     A famosa queda d’água conhecida como Cascatinha da Tijuca, pertencia ao Sítio da Cascatinha, da família Taunay. O topo da cascata, entretanto, era parte da Fazenda Bela Vista, propriedade do visconde de Souto.
     Os nomes de alguns pontos da topografia da atual Floresta da Tijuca foram alterados no decorrer das décadas e dos séculos. A Pedra do Conde, por exemplo, recebeu tal nome porque estava dentro da propriedade do conde de Gestas. De 1850 a 1864, passou a ser conhecida como Pedra do Souto. Alberto de Sousa Costa, em Amor 1º, o cruel: romance d’uma "carioca", de 1926 (repetido por Jacinto do Prado Coelho em O Rio de Janeiro na literatura portuguesa, de 1965), cita a Pedra do Souto ao descrever a Tijuca da metade do século XIX, quando era uma serra onde se plantavam árvores frutíferas e café, e começava a sofrer os efeitos do desmatamento, da erosão e do assoreamento, antes de a região ser transformada em floresta para a proteção das nascentes:
Os fundos quietos, com suas densas massas de arvoredo – mangueiras, coqueiros, palmeiras, bananeiras, laranjeiras, todas as espécies misturadas, todas as formas confundidas – tornaram-se vastos pântanos sombrios onde a vida mergulha e se afoga. A meio das vertentes – a do morro "do Meireles", a da "Pedra Grande", a do "Pico da Tijuca", a da "Pedra do Souto" – troncos e ramagens são turbas de filhos do pecado fugindo às águas negras do dilúvio. (COSTA, 1926, p. 32-33; COELHO, 1965, p. 223-224).
     Ao que tudo indica, depois que o Souto vendeu a fazenda para o conde de Bonfim, o morro voltou a chamar-se Pedra do Conde, como nos tempos do conde de Gestas, e assim permanece.
  
     Embora a Chácara do Souto, em São Cristóvão, residência principal da família, contasse com uma capela, o visconde resolveu mandar construir outro pequeno templo nas terras da Fazenda Bela Vista, consagrando-o a Nossa Senhora de Belém, da qual era devoto. Erguido ao lado do casarão, que não mais existe, o oratório é hoje conhecido como Capela Mayrink.


Capela Mayrink. Foto Sílvia Maria Pinheiro Grumbach, agosto 2009.
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     No livro Parque Nacional da Tijuca, Carlos Manes Bandeira dá mais detalhes a respeito da Fazenda Bela Vista e da Capela Mayrink:
[...] Em 1864 o visconde foi à falência com sua casa bancária, vendendo a propriedade para José Francisco Mesquita (barão, visconde, conde e marquês de Bonfim). O local então passou a ser conhecido como "Alto do Mesquita", indo do topo da Cascatinha até à cancela de Midosi, um pouco acima do "O Barracão", no final da Estrada do Imperador. Com o falecimento do conde de Bonfim, herdou a fazenda Jerônimo José de Mesquita, barão de Mesquita, que a administrou até 1886, quando faleceu, deixando a propriedade para sua filha Francisca Elisa de Mesquita. Em 1888 Francisca a vendeu ao conselheiro Francisco de Paula Mayrink, que fez uma ampla reforma na propriedade e na capela. [...] Em 1897 a Secretaria de Agricultura do Distrito Federal, através do termo lavrado em 18 de maio de 1897, adquiriu a propriedade para nela instalar uma captação de água. Foi a última desapropriação. (BANDEIRA, 1994, p. 104).
     O autor prossegue, referindo-se à trilha que levava da Estrada Velha à casa e capela do Souto: "Começa na curva superior da Estrada do Imperador, a cavaleiro do Largo da Cascatinha, e sobe até quase em frente à Capela do Mayrink, sobre o leito da Antiga Estrada aberta pelo visconde de Souto". (1994, p. 137).
     A história da capela da Floresta da Tijuca vem sendo contada em livros, jornais e revistas. O livro Vida e obra do conselheiro Mayrink, escrito por seu neto, Mayrink Lessa, dá ricos pormenores a respeito da capelinha: "Não havia no Rio de Janeiro um mini-templo mais encantador. O imperador e a imperatriz muitas vezes iam ali para respirar o ar da mata e fazer orações. A casa grande criou fama em toda a cidade" (LESSA, 1975, p. 204). Desde Gestas e do visconde de Souto até ao conselheiro Mayrink, ficaram os registros de que a fazenda foi sistematicamente visitada por três gerações de soberanos no Brasil: dom João VI, dom Pedro I e dom Pedro II.
     É Lessa quem continua explicando:
Como disse, foi construída por Alves Souto em 1851, junto ao casarão da chácara da floresta que um ano antes comprara. Mas a sua verdadeira história só começa em 1860 com um batizado famoso que a escritora D.ª Therezinha L. de Oliveira, em artigo publicado em "O Globo", no ano de 1970, atribui a frei João do Amor Divino Caneca. Não deve ser o famoso frei Caneca da História, herói da Confederação do Equador, morto em 1825, muitos anos antes portanto. Além disso, chamava-se este Joaquim e não João. Em 1864, por falência do Souto, passou, como foi dito, a pertencer seguidamente a várias pessoas da família Mesquita. [...] Em 1888 foi vendida a propriedade completa ao conselheiro Mayrink, cujas vistas se voltaram logo para a capelinha [...] (LESSA, 1975, p. 206).
     Souto construiu a capela em 1850, e não em 1851, e o religioso mencionado era Frei João do Amor Divino Costa, nascido João Eustáquio da Costa em 1830, e não Frei João do Amor Divino Caneca. Franciscano, teve importante atuação no meio eclesiástico, e faleceu em 1909. Segundo anotação em diário de José António Alves Souto, o quarto filho do visconde, foi capelão também do oratório particular na Chácara do Souto.
     Não raro, autores escrevem, erroneamente, que a Capela Mayrink teria pertencido aos primeiros donos da propriedade, os viscondes de Asseca e o conde de Gestas, como se lê em Tijuca de rua em rua, publicado em 2004:
A pequena Capela Mayrink, do começo do século XIX, depois de passar por vários proprietários como o visconde de Asseca, o conde de Gestas, o visconde Alves de Souto e o conde de Bonfim, recebeu o nome do último proprietário, o conselheiro Francisco Paula Mayrink. (ROSE; AGUIAR. 2004, p. 28).
     É sabido e documentado que a capela em questão não foi construída no começo do século XIX, e não "passou" pelo visconde de Souto, mas foi mandada por ele erigir. O ano de 1860 vinha equivocadamente inscrito ao centro da estrela branca de oito pontas que existe no frontão do oratório. Na verdade o Souto mandara construir a capela em 1850, ao mesmo tempo que executava a reforma do casarão ali existente. A data incorreta permaneceu inscrita no frontão até os primeiros anos do século XXI, quando foi corrigida por iniciativa da museóloga Ana Cristina Pereira Vieira, Coordenadora de Cultura do Parque Nacional da Tijuca.
     Um problema para a História do Brasil é o das informações distorcidas divulgadas em livros antigos, os quais serviram de base às pesquisas feitas nas décadas posteriores, sendo equivocadamente perpetuadas em novos livros. Tal é o caso da obra A floresta da Tijuca, escrita por Raymundo Ottoni de Castro Maya, diretor do parque florestal no biênio 1943-1944, quando naquele lugar ocorreram restaurações de sítios, casas e caminhos, sob a administração do prefeito Henrique Dodsworth. Em que pese a dedicada atuação de Castro Maya e a sensibilidade demonstrada no texto do seu livro e nas belas fotografias de Humberto e José Moraes Franceschi que o ilustram, causa espanto constatar que o diretor da Floresta desconhecia a história da Capela Mayrink, ainda que tenha ilustrado seu livro com uma fotografia do exterior e três do interior do oratório. Castro Maya atribui a construção do pequeno templo à baronesa de Rouhan, que ele grafa "Rouan":
[...] O antigo sítio da Cascatinha foi todo remodelado. [...] Faz-se um romance em torno da Capela de Mayrink, que é relativamente recente: provavelmente da segunda metade do século XIX, construída no sítio da Baronesa de Rouan que mais tarde veio a pertencer ao Conselheiro Mayrink. (MAYA, 1967, p. 30).
     A baronesa de Rouhan, citada por Castro Maya, era casada com o almirante de Beaurepaire. O casal comprou, por volta de 1810, uma área fronteira à propriedade de Gestas, na colina à esquerda da Fazenda Bela Vista, a qual, após a morte do almirante, foi vendida em duas partes pela baronesa viúva: o "Sítio do Almirante" e o "Sítio do Francisco". Em prol da verdade histórica e da exatidão dos fatos, é oportuno reafirmar que a Fazenda Bela Vista foi propriedade, respectivamente, do conde de Gestas, visconde de Souto, conde de Bonfim, barão de Mesquita, Francisca Elisa de Mesquita e conselheiro Mayrink. Jamais pertenceu à baronesa de Rouhan, e o Souto foi quem mandou construir a capela.
     O livro História das ruas do Rio de Janeiro, de 1954, tem 350 páginas. Anos depois, em 1965, quando o autor Brasil Gerson ampliou a sua obra para 580 páginas, alterou ligeiramente o título da nova edição para História das ruas do Rio, sem o "de Janeiro". Tornaram-se, portanto, dois livros diferentes. Na edição ampliada Gerson mencionou a "capela do Mayrink" sem aludir ao visconde de Souto. Num raro exemplo de elegância, rigor e respeito à História, ao lançar em 1970 O ouro, o café e o Rio, acrescentou-lhe um apêndice, justificando-se:
Difícil que seria agora mais uma edição da "História das ruas do Rio", que, com o "sertão" e os subúrbios chegou a 580 páginas, que se aproveite esta oportunidade para algumas correções e acréscimos nela necessários, especialmente sobre a Tijuca e o Andaraí. [...] E antes que seja tarde: a capela tida como do Mayrink (vide pag. 453) já existia em 1860, segundo pesquisa recente do "Guia Rex", na chácara que fora inicialmente do visconde Antônio Alves Souto, que não figurava na relação dos titulares do Império brasileiro. (GERSON, 1970, p. 147 e 153).
     A propósito, o visconde de Souto realmente não figurava – e não figura – na relação dos titulares do império, pelo fato de ter sido visconde pelo reino de Portugal e não pelo império do Brasil. Pelo mesmo motivo, o Almanak Laemmert deixou de mencioná-lo durante as décadas em que publicou os nomes dos titulares, bem como na relação "Grandes do Império", onde aparecem em ordem alfabética todos os marqueses, condes, viscondes e barões agraciados com tais títulos pelo soberano do Brasil.
     Mayrink Lessa conta o episódio da decoração da capela por Portinari na primeira metade do século XX:
Moradores da região, mediante nova subscrição, encomendaram ao grande artista Portinari painéis religiosos do próprio punho para o interior do templo. Resultaram daí as quatro telas que no recinto se encontram. Em 16 de julho de 1944, o cardeal D. Jaime de Barros Câmara, celebrou ali missa solene, inaugurando oficialmente o mini-santuário. As quatro telas de Portinari são: Nossa Senhora do Carmo e o Menino; São Simão Stock; São João Batista da Cruz, na parte superior do altar e uma visão do purgatório na parte inferior. Tirados de modelos vivos, levou o pintor à tela a figura de sua irmã Inês, como Nossa Senhora; seu filho, como o Menino Jesus; seu irmão, como São João da Cruz, o grande místico; e seu pai como São Simão Stock, a quem Nossa Senhora entregou o escapulário. (LESSA, 1975, p. 208).
     Não são conhecidos registros do aspecto original da capela à época em que foi concebida pelo visconde de Souto. Entretanto, um episódio ocorrido em 1985, pôs nas mãos de Francisco Souto Neto, um dos autores deste artigo, precioso documento que muito provavelmente é a mais antiga imagem da hoje denominada Capela Mayrink. Naquele ano, no Rio de Janeiro, Souto Neto dirigiu-se ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no Palácio Gustavo Capanema, para tratar do andamento da proposição que fizera pelo tombamento do Cemitério São Francisco de Paula, mais conhecido como Cemitério do Catumbi, onde estão sepultados os viscondes de Souto, dentre outros grandes vultos do Segundo Reinado. Na ocasião, o arquiteto Umberto Nápoli, que tratava do assunto durante a gestão de Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, disse casualmente a Souto Neto que nos arquivos havia uma gravura da casa do visconde de Souto na Fazenda Bela Vista. Retirou-se por alguns minutos e ao retornar trazia a cópia xerox possivelmente de uma litografia, que mostrava o casarão. Ao lado, um pouco ao fundo e atrás do arvoredo, via-se a parte superior da fachada de um oratório. Como a gravura priorizava a fachada da casa, a identificação da capela ficou no terreno da suposição, embora tudo indicasse tratar-se da hoje Capela Mayrink, o que seria comprovado anos mais tarde.


 
Mansão do Visconde de Souto na Fazenda Bela Vista. Atrás do arvoredo, à
esquerda, a capela (hoje Mayrink). Possível litografia, sem autor identificado.
Acervo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

     Ao longo do tempo a capela vem sofrendo interferências na estrutura. Ao que parece, o conde de Bonfim a reformou em 1865, logo que comprou a Fazenda Bela Vista da massa falida do visconde de Souto. Também restaurou-a o conselheiro Mayrink ao adquirir a propriedade em 1888. Depois da desapropriação feita pelo governo da nascente república, o pequeno templo caiu no esquecimento. Na década de 30 do século XX a construção estava próxima da ruína quando recebeu uma reforma, concluída em 1938.
     Em 1943 Raymundo Ottoni de Castro Maya assumiu a administração da Floresta da Tijuca por um biênio, disposto a embelezar a construção. Entretanto, e infelizmente, efetuou grandes e incorretas alterações na capela, a seu bel-prazer e sem nenhum rigor histórico. Embora fosse um mecenas dedicado, praticou descaracterizações na Capela Mayrink e fez reconstruções inadequadas em outros prédios da floresta. Para servir como sacristia, mandou construir um anexo na lateral do oratório, dando-lhe a forma de um "L" invertido. As janelas em semicírculo foram retiradas e o templo recebeu outras, redondas.

Capela Mayrink com o frontão pintado de azul e com a sacristia que lhe
dava a forma de um “L” invertido. Foto Francisco Souto Neto, fevereiro 1969.
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     Apesar desses equívocos, Castro Maya também efetuou bem-vindas inovações, como a aquisição de telas de Portinari para o altar. Para adornar os nichos da fachada obteve duas estátuas de mármore, a Fé e a Caridade, e mandou construir um campanário ao lado da capela. Burle Marx cuidou do paisagismo.
     Entre 1960 e metade da década seguinte, a capela declinou até ao completo abandono. Primeiro a pintura deteriorou-se e a construção foi sendo aos poucos coberta por pichações, até ficar, em 1976, com aspecto próximo ao de uma ruína.

 Detalhe da porta da Capela Mayrink vandalizada, em 1977.
Foto acervo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
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     Por providencial exigência do IPHAN, sua restauração foi iniciada em 1977, na administração de Antônio Domingos Aldrighi. Contrariando os interesses da Cúria Metropolitana, mas atendendo a fidelidade histórica quanto ao aspecto original da construção, demoliu-se a sacristia, o porão incorretamente aterrado por Castro Maya foi desobstruído para ventilação, e a capela voltou a receber telhas como as originais. As janelas tornaram ao seu antigo formato, segundo relato constante do catálogo assinado pela coordenadora de cultura do Parque Nacional da Tijuca, Ana Cristina Pereira Vieira. Das intervenções arquitetônicas de Castro Maya, conservou-se somente o campanário.
     Em 2004 a capela recebeu de Carlos Barros a doação de portas de vidro, instaladas na parte externa da porta principal.

Interior da Capela Mayrink.
Foto por gentileza de Rick Ipanema (Ricardo Ramalho), janeiro 2010.

     Ao mesmo tempo que efetuou a correção da data da construção da capela, Ana Cristina Pereira Vieira encomendou ao escultor Baldinir Bezerra da Silva uma imagem da primeira padroeira, Nossa Senhora de Belém, da devoção do visconde de Souto, com 80 cm de altura por 45 cm de base. Agora figuram na capela as suas três padroeiras históricas.
     O pequeno templo, muito bem cuidado neste começo de século, faz jus àqueles que o apontam como um dos mais belos e pitorescos das terras fluminenses. É uma jóia arquitetural a surpreender pela delicada beleza e a encantar os visitantes da Floresta da Tijuca, um precioso legado do visconde de Souto ao Rio de Janeiro.
     (Este artigo é parte do livro Visconde de Souto – Ascensão e "Quebra" no Rio de Janeiro Imperial, ainda inédito, escrito pelos autores deste texto, trinetos do visconde)


Referências:

AZEVEDO, Arthur; MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo (org.). Contos ligeiros. Rio de Janeiro: Bloch, 1974. p. 113, 114.
BANDEIRA, Carlos Manes. Parque Nacional da Tijuca. São Paulo: Makron, 1994. p. VIII, 68, 77, 78, 104, 137, 146.
CALMON, Pedro. História do Brasil. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1963. v. 5, ed. 2, p. 1731.
CARVALHO, Ney Oscar Ribeiro de. Bolsa de Valores do Rio de Janeiro 150 anos: a história de um mercado. Rio de Janeiro: MCR, 1995. p. 54.
COELHO, Jacinto do Prado. O Rio de Janeiro na literatura portuguesa. Lisboa: Comissão Nacional das Comemorações do IV Centenário do Rio de Janeiro, 1965. p. 224.
COSTA, Alberto de Sousa. Amor 1.º, o cruel: romance d’uma "carioca". Lisboa: Portugal-Brasil, 1926. p. 39.
FERREZ, Gilberto. Pioneiros da cultura do café na era da independência: a iconografia primitiva do café. Rio de Janeiro: IHGB, 1972. p. 48-49, 56-57, 69, 96.
FRANCO, Gustavo Henrique Barroso. A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2008. p. 135, 165.
GERSON, Brasil. O ouro, o café e o Rio. Rio de Janeiro: Brasiliana, 1970. p. 153.
LESSA, Francisco de Paula Mayrink. Vida e obra do conselheiro Mayrink (completada por uma genealogia da família). Rio de Janeiro: Pongetti, 1975. p. 130, 204, 206.
MAYA, Raymundo Ottoni de Castro. A Floresta da Tijuca. Rio de Janeiro: Bloch, 1967. p. 30.
MORALES DE LOS RIOS FILHO, Adolfo. O Rio de Janeiro Imperial. Rio de Janeiro: A Noite, 1946. p. 256.
SCHWARCZ, Lília Moritz. O Sol do Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 2008. p. 267
TAUNAY, Affonso D’Escragnolle. História do café no Brasil: v. 5, t. III. Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1939. p. 81-82, 84, 158, 460.
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Páginas digitalizadas da R.IHGB, Rio de Janeiro, a. 173, n. 455, pp 11-300, abr./jun. 2012:

















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