terça-feira, 12 de julho de 2011

Le Mont-Saint-Michel: a cidadela medieval, marés brutais e areias movediças

Arte e Memórias de Viagens

Francisco Souto Neto na Revista MARY IN FOCO nº 14 – Janeiro 2008 (p. 44-45), de Mary Schaffer e Marco Antônio Felipak

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LE MONT-SAINT-MICHEL: A CIDADELA MEDIEVAL, MARÉS BRUTAIS E AREIAS MOVEDIÇAS

Francisco Souto Neto (*)


      Imagine um lugar no mundo que surpreenda tanto pela história remota, quanto pelos fenômenos naturais que o envolvam. Imagine uma ilha, próxima ao continente, onde o mar, na maré vazante, afaste-se por mais de dez quilômetros, expondo perigosas areias movediças. E que, na montante, o mar retorne na velocidade de um cavalo a galope. Como não bastasse, pense nessa ilha revestida por encantadora cidadela medieval coroada por uma abadia cuja torre se eleve a cerca de 150 metros acima do nível do mar, dando ao conjunto de aspecto piramidal uma visão de assombrosa beleza...

      Pois esse lugar existe, na Normandia, ao norte da França. Trata-se de Le Mont-Saint-Michel, cognominado “A Maravilha do Ocidente”. Estive lá com meu amigo Rubens Faria Gonçalves. Durante quatro dias hospedamo-nos no Hotel Du Guesclin, um prédio de centenas de anos, donde apreciamos as maiores marés do planeta.

Marés brutais e areias movediças

      No mês de junho as marés atingem seu ápice. Na vazante, o mar afasta-se a perder de vista, deixando expostas as temíveis areias movediças. Na montante, retorna “com a velocidade de um cavalo a galope”, 30 quilômetros horários, conforme se registrava já há séculos. Por isso, é proibido nadar na maré alta e andar pelas areias na baixa. Por duas vezes ao dia, pode-se assistir ao fascinante fenômeno do retorno do mar, que chega ruidosamente, provocando rodamoinhos e fazendo as águas de um córrego ali existente correrem ao contrário. A maré cheia costuma trazer animais marinhos costumeiramente incomuns. Tivemos a oportunidade de observar uma foca que chegou nas ondas. Ela arrastou-se até à margem e ficou tomando um pouco de sol, formando ao redor de si um espesso anel de turistas. Em seguida retornou espontaneamente ao mar e desapareceu nas ondas.

      A diferença da altura entre a montante e a vazante pode chegar a 15 metros. Durante a maré baixa, é permitido caminhar pelas areias, porém, desde que sob a supervisão de um guia profissional do próprio Le Mont, que sabe identificar e evitar as movediças. Andar sobre tais areias perigosas é uma experiência inesquecível porque elas são escorregadias como sabão. Cada passo tem que ser trocado lentamente, com os pés tateando cuidadosamente a cada pegada.

      No final do século XIX a ilha foi unida ao continente por uma passarela artificial, conhecida como La Digue. Mesmo durante as marés mais altas do ano, La Digue não é encoberta pelas águas, o que proporciona ao Mont-Saint-Michel um contato permanente com a terra firme e permite que veículos se aproximem até à entrada da cidadela.

A história da cidadela

      Ainda mais fascinantes do que as marés e as areias movediças, são a própria cidadela medieval e a imensa abadia.

      Segundo a lenda, São Miguel apareceu em sonhos ao abade Aubert, pedindo-lhe que construísse uma igreja no alto da ilha então chamada de Mont-Tombe (Túmulo no Monte). O Mont-Saint-Michel, como passou a ser conhecido, começou como um oratório no ano de 708, portanto, há justos 1300 anos. Em 1017 iniciou-se a construção da igreja da abadia. No início do século XIII foi acrescentado o mosteiro que passou a ser conhecido como “La Merveille” (“O Milagre”). Na Idade Média, a ilha já estava coberta por uma cidadela protegida pelas muralhas que subsistem intactas.

       Ônibus e automóveis podem aproximar-se através de La Digue, mas só até aos portões da cidadela, que é aberta apenas para os pedestres. Sua rua principal chama-se “Grande Rue”, que leva até à abadia. Cortada por ruelas e becos intercomunicáveis, é um caminho íngreme, trilhado por peregrinos desde o século XII,  hoje cheio de lojas e alguns hotéis.

      A abadia, por sua vez, é uma obra-prima gótica. Chamados de “moquelots”, os peregrinos viajavam ao Monte para cultuar Saint-Michel (São Miguel), e o mosteiro era um centro de instrução na Idade Média. Após a Revolução Francesa, a abadia virou prisão. Hoje é um monumento nacional que atrai multidões de turistas.

      Os visitantes, em sua maciça maioria, chegam em excursões de ônibus e passam só algumas horas, ou alguns instantes, visitando as atrações do Monte, quase sempre ignorando as imensas marés. Durante o dia é preciso espremer-se entre esses turistas que, quase corpo-a-corpo, disputam os caminhos, lotam a Grande Rue e entopem as lojas. Muitos turistas viajam com seus cães, que podem entrar na cidadela, mas têm o ingresso proibido na abadia.

      Porém à noite, o silêncio cai sobre o Monte, principalmente no meio da semana, quando os hotéis não abriguam mais do que uns pouquíssimos hóspedes. Os turistas desaparecem como que por encanto, porque as excursões de que participam são muito rápidas e logo retiram-se nos seus apressados ônibus em busca de outros destinos.

      Os cães se vão com os turistas, embora alguns sejam moradores da cidadela, como seus donos. Despontam então os outros animais: primeiro os passarinhos liquidando os farelos dos comestíveis derrubados durante o dia pelos turistas. Após o anoitecer, o que ocorre por volta das 22 horas, surgem os verdadeiros donos do lugar: os gatos. Inúmeros, eles entram nos latões de lixo revirando tudo o que encontram e andam em atitude de caça, talvez procurando por ratos e insetos.

      Deter-se por alguns dias no Le Mont-Saint-Michel para apreciar o conjunto arquitetônico e os fenômenos naturais que ocorrem em seu entorno, é uma das mais belas experiências de toda a nossa existência.

Legendas. Foto 1 – O Mont-Saint-Michel durante a maré alta, ligado ao continente por La Digue. Foto 2 – O Monte na maré vazante expõe traiçoeiras areias movediças. Foto 3 – O Monte visto do continente, com Rubens Faria Gonçalves em primeiro plano, e ovelhas.    

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Pompeia à sombra do vulcão

Arte e Memórias de Viagens

Francisco Souto Neto na Revista MARY IN FOCO nº 13 – Novembro 2007 (p. 44-45), de Mary Schaffer e Marco Antônio Felipak

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POMPEIA À SOMBRA DO VULCÃO

Francisco Souto Neto (*)

        O visitante que chega a Nápoles, ao sul da península itálica, não pode deixar de observar o Vesúvio, um vulcão que se eleva a 1277 metros ao fundo da cidade. As construções se estendem ao sopé do vulcão e sobem as suas encostas. Corajoso povo napolitano, pois o Vesúvio é um vulcão ativo que poderá, a qualquer momento, entrar em erupção, como vem acontecendo através de toda a História conhecida.

       No ano de 79 da nossa era, o Vesúvio sofreu a sua mais famosa e destruidora erupção, sepultando importantes cidades como Pompeia e Herculano. Na maior delas, Pompeia, morreram mais de duas mil pessoas.

      Durante a erupção, os ventos espalharam cinzas e rochas incandescentes para o lado oposto a Nápoles, na direção para onde o vulcão derramou também seus mortais fluxos piroclásticos. Assim, Pompeia e Herculano foram sepultadas com os habitantes e animais que não conseguiram fugir ao cataclismo.

      Pompeia e as outras povoações adjacentes ficaram enterradas sob uma camada de vários metros de rochas e cinzas incandescentes. Passaram-se dezessete séculos, tempo em que a terra carregada pelos ventos foi encobrindo o espesso lençol já solidificado, em cuja superfície cresceu densa vegetação. E o local das cidades foi esquecido através de muitas centenas de gerações. Até que em 1748, por acaso descobriu-se a existência da cidade congelada no tempo, quando então começaram as suas escavações.

Pompéia hoje

      Muitos prédios resistiram à erupção e permaneceram intactos, assim como estátuas, objetos de decoração e utilitários das vivendas. Até as pinturas murais e as ruas calçadas revivem o passado, revelando que Pompeia era uma cidade de veraneio, muito próspera, onde as famílias ricas mantinham verdadeiras mansões para delas usufruir nas suas férias.

      Passear por Pompeia é retroceder dois mil anos no tempo e ver como viviam as pessoas abastadas do Império Romano. A Via dell’Abbondanza (Rua da Abundância) era a principal artéria da cidade, cheia de lojas. Estão lá os bares onde serviam bebidas e pratos preparados, a casa que funcionava como lavanderia e tinturaria, a padaria com seus fornos e utilitários de cerâmica. Em outro setor da cidade está o Foro, que é onde se situavam os edifícios públicos, como a basílica (onde se resolviam assuntos jurídicos e comerciais), os templos de Apolo, Júpiter e Vespasiano, e também um grande mercado coberto. Havia um enorme anfiteatro, além de teatros, termas, caserna e tudo o que se poderia esperar de uma importante cidade do Império Romano.

      Há mansões que tomam quarteirões inteiros e apresentam surpreendente luxo, muitas delas com pinturas de incrível beleza, mosaicos muito bem elaborados e estátuas de bronze. A residência que mais me impressionou foi a “Casa do Fauno Dançante”, assim denominada por causa da pequena estátua que adornava o seu “impluvium”, um pequeno espelho d’água situado no átrio de entrada à mansão. Essa residência era extremamente luxuosa, com dois átrios, dois peristilos e uma sala de refeição para cada uma das estações do ano. Um dos maiores mosaicos, que se encontrava no quarto principal, foi transferido para o Museu de Nápoles. Mas, havia casas maiores e mais luxuosas do que esta a que me refiro.

      O lupanar, bem no centro da cidade, também chama a atenção: era o prostíbulo oficial da urbe. Sobre cada uma das portas que leva aos pequenos quartos há pinturas com temas obscenos, para indicar a “especialidade” da prostituta que ali se encontrava. Nas paredes dos cubículos há ainda grafites dos pompeianos do primeiro século, relatando as impressões daqueles clientes sobre os serviços prestados...

      É preciso ter sempre em mente que estou me referindo a uma cidade que foi sepultada pelo Vesúvio apenas 46 anos depois da morte de Cristo e um milênio e meio antes do Brasil ser descoberto!

      Na Casa do Criptopórtico estão as imagens em gesso de como alguns dos habitantes se encontravam no momento em que foram atingidos pelas lamas ardentes. Uns morreram sentados, outros abraçando-se, há crianças cobrindo o rosto com as mãos... Há até um cão petrificado no momento em que se contorcia agonizante. Esses “moldes” de pedra vulcânica (isto é, da lama fervente que se petrificou) foram encontrados já sem vestígios dos corpos. Mas, ao serem preenchidos com gesso, revelaram com detalhes as formas das pessoas e animais no momento de sua morte no ano 79.

      Um passeio por Pompeia acaba transformando-se em reflexão a respeito da vida e da morte: quase todas as pessoas eliminadas pelo Vesúvio tiveram seus nomes esquecidos no tempo, viraram pó, algumas deixaram o molde em gesso da sua agonia, mas foram, todas elas, seres humanos como nós, que nasceram, brincaram, sofreram, amaram, viveram e desapareceram... há quase dois milênios.

(*) Francisco Souto Neto, o autor, é advogado, jornalista e crítico de arte.

Legenda; Foto 1 – Dançarino pompeiano na vila dos Mistérios. Foto 2 – Pompeia com Vesúvio ao fundo. Foto 3 – Mural em residência. Foto 4 – Rua em Pompeia.

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Seguindo as pegadas de Joana d'Arc em Rouen, a Oeste da França

Arte e Memórias de Viagens

Francisco Souto Neto na Revista MARY IN FOCO nº 12 – Outubro 2007 (p. 50-51), de Mary Schaffer e Marco Antônio Felipak

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SEGUINDO AS PEGADAS DE JOANA D’ARC
EM ROUEN, A OESTE DA FRANÇA

Francisco Souto Neto (*)

     Passei alguns dias na cidade de Rouen, na Normandia, Oeste da França.

     Ainda no Brasil, ao fazer a reserva no Hotel Du Morand, pedi que me assegurassem um apartamento no andar mais alto, o terceiro, com vista para a torre onde Joana d’Arc foi torturada antes de seguir para o suplício na fogueira. Meses depois, quando viajei a Rouen, ao chegar ao meu apartamento, abri a janela a vi a sinistra torre elevando-se acima dos telhados do quarteirão à frente.

A fogueira (o jardim) de Joana d’Arc

     Entretanto a primeira visita que fiz naquela cidade não foi à torre, mas à Praça do Velho Mercado, local em que Joana d’Arc foi queimada viva. Aproximando-me do lugar, fiquei impressionado ao ver que aquela parte da praça é pedregosa, quase sem grama, mas o local exato da fogueira estava coalhado de petúnias em três tons de vermelho que, ao vento, pareciam chamas em movimento.

     Embora a morte de Joana d’Arc tenha ocorrido há 577 anos, não há dúvidas quanto ao local exato, porque atrás de onde morriam as pessoas vítimas da “Santa Inquisição”, estão as ruínas do mur pare feu (muro pára-fogo), que tinha a função de evitar que o vento propagasse as fogueiras humanas. O atual jardim, ligeiramente circular, está contido pelas ruínas do muro. Ao lado, encontra-se o pilori (pelourinho) onde os condenados esperavam sua hora para morrer queimados.  Bem ao centro do jardim, uma placa diz: “LE BÛCHER – Emplacement où Jeanne d’Arc fut brûlée le 30 Mai 1431” (“A FOGUEIRA – Lugar onde Joana d’Arc foi queimada em 31 de maio de 1431”). Em frente à fogueira há uma cruz com uns 15 metros de altura. E ao fundo de tudo localiza-se a Église de Jeanne d’Arc, uma igreja moderna e com telhado esquisito, de meados do século XX, embora com belos vitrais aproveitados de uma igreja medieval demolida.

     O Velho Mercado funciona desde a Idade Média num dos lados da praça. Seu teto é moderno, da mesma idade da igreja, e muito criativo porque faz lembrar enormes chamas. A praça é cercada de restaurantes e lojas, com gente passeando com seus cães, e há barracas de venda de flores... Uma verdadeira festa, alheia aos dramas e martírios ali ocorridos no distante passado.

     Todos os dias eu passava pela “fogueira” e me detinha um pouco, quase hipnotizado, vendo as chamas – as flores do jardim – bruxuleantes ao vento. A atmosfera do lugar, torna o passado quase palpável! Ver o jardim de Joana d’Arc foi uma das mais marcantes impressões de todas as coisas que vi e senti em muitas viagens à Europa.

A torre sinistra

     A torre está protegida por um enorme e profundo fosso. Alcança-se sua porta de entrada após atravessar uma ponte. Subi à torre pelos mesmos degraus, já desgastados pelos séculos, que foram galgados pela menina assustada e frágil, pela Igreja condenada à fogueira, acusada de heresia e bruxaria. Quanta ignorância e quanta pequenez mental existiam nos religiosos de então, na mesma época em que os arquitetos já erguiam extraordinárias catedrais.

     Depois, saindo da torre, já na rua, observei que na calçada havia uma reentrância junto ao muro, com uma placa de bronze que dizia estarem ali as cinzas de cidadãos mortos pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Detalhes dessa natureza criam, sem dúvida, um clima “pesado” na cidade de Rouen.

St. Ouen, a igreja das pedras que caem

     Na Église de St. Ouen, anos após sua morte, Joana d’Arc foi reabilitada pela Igreja Católica, a mesma que a mandara arder na fogueira. Essa igreja, cuja construção começou em 1318 e terminou no século XV, está totalmente enegrecida pelo tempo. E não é só: toda sua fachada e algumas partes das laterais estão interditadas para os pedestres. Placas avisam: “PASSAGEM PROIBIDA: QUEDA DE PEDRAS”.  Não é sempre, mas, vez ou outra, imensos blocos de pedras desprendem-se das altíssimas paredes da igreja, espatifando-se na calçada.

     A entrada se faz por uma das portas laterais. Por dentro da igreja, uma surpresa: ela está totalmente restaurada, com os arcos góticos limpos, quase brancos, os ouros faiscantes e os vitrais luminescentes pelo sol! Isto significa que, em breve, também o exterior da construção será restaurado, e as pedras bem fixadas para que não voltem a ameaçar os transeuntes...

     Antes de deixar Rouen rumo a Paris, voltei ao Jardim de Joana d’Arc para ver o hipnotizante movimento das flores ao vento. Lembrei-me de que, segundo relatos da época, o coração da santa não se queimou, e foi então colhido das cinzas e atirado às águas do Rio Sena, bem próximo dali.

     Fui embora. Mas parei um pouco e olhei para trás. As flores, iluminadas pelo sol dourado da tarde, bruxuleavam como chamas. E pensei: “Europa! É aqui que o inconsciente coletivo faz a História permanecer palpável, concreta e viva para sempre!”.

Ilustrações: Foto 1 – Placa no jardim de gerânios da Praça do Velho Mercado, que diz: “A FOGUEIRA. Lugar onde Joana d’Arc foi queimada em 30 de maio de 1431”. Foto 2 – A sinistra torre onde Joana d’Arc foi torturada. Foto 3 – Igreja de São Ouen, a igreja das pedras que caem.

(*) Francisco Souto Neto, o autor, é advogado, jornalista e crítico de arte.

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Um paralelo entre Tarsila do Amaral e Frida Kahlo

Arte e Memórias de Viagens

Francisco Souto Neto na Revista MARY IN FOCO nº 11 – Setembro 2007 (p. 50-51), de Mary Schaffer e Marco Antônio Felipak

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UM PARALELO ENTRE
TARSILA DO AMARAL E FRIDA KAHLO

Francisco Souto Neto (*)

     A revista Casa Vogue publicou um belíssimo ensaio fotográfico baseado na interpretação dos arquitetos Roberto Migotto e Sid Bergamin, coadjuvados por Lino Villaventura e André Lima, a respeito das artistas plásticas Tarsila do Amaral e Frida Kahlo, respectivamente, criando instigantes e persuasivos cenários e ambientes para reviver as referidas artistas.

     Um amigo que leu a revista, admirado com o resultado plástico do ensaio e com a força da arte da brasileira Tarsila e da mexicana Frida, sugeriu-me traçar um paralelo entre ambas. O curioso é que entre elas não existe nada em comum, nem paralelos perceptíveis, exceto que viveram mais ou menos numa mesma época, foram admiradoras do comunismo e, principalmente, inovadoras e atrevidas nas artes plásticas. A maior semelhança entre ambas, entretanto, talvez seja a transgressão na arte, assim como o desafio, a originalidade e a ruptura com o tradicional. A coragem de criar livremente e de romper convenções, cada qual à sua maneira, foram determinantes no panorama artístico de seus respectivos países, conforme comentarei adiante.

Tarsila do Amaral

     Nascida de uma família rica na cidade paulista de Capivari, Tarsila do Amaral (1886 – 1973) começou a pintar aos 31 anos de idade, no atelier de Pedro Alexandrino Borges, onde conheceu Anita Malfati. Logo após a Semana de Arte Moderna de 1922 (da qual não participou), ambas juntaram-se a Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia. Em 1923 Tarsila viajou pela segunda vez a Paris, onde conheceu Picasso e de Falla. De volta ao Brasil, descobriu em Minas Gerais os novos rumos para sua arte. Em 1926 casou-se com Oswald de Andrade, justamente quando se iniciou o Movimento Antropofágico. Este casamento, o segundo de quatro uniões oficiais e não oficiais, terminou em 1930. Devido à “Quinta-Feira Negra” da Bolsa de Nova York de 1929, Tarsila perdeu todos os seus bens, passando a trilhar, durante certo tempo, o caminho da pobreza.

     Foi durante o seu curto casamento com Oswald de Andrade que Tarsila pintou o Abaporu. Para ter-se uma ideia do que representa hoje a sua pintura, basta dizer que o referido quadro foi a leilão realizado nos Estados Unidos em 1995 e arrematado por um colecionador argentino por um milhão e meio de dólares. É lamentável que nenhum museu brasileiro tivesse se interessado em adquirir tal obra-prima, porque hoje ela está em Buenos Aires numa residência particular!

     Embora Tarsila tivesse percorrido uma fase voltada ao trabalhador, isto após ter visitado a então União Soviética, e de ser presa ao retornar ao Brasil naqueles tempos do nosso malfadado “macarthismo tupiniquim”, já nos anos 40 a artista alcançava o auge da sua arte envolvendo temas brasileiros em obras de lindas cores e formas.

Frida Kahlo

     Frida Kahlo (1907 – 1954) teve toda a sua trajetória de vida marcada pela dor física, tragédias, doenças e sofrimento. Aos três anos de idade teve poliomielite, que deixou uma lesão em seu pé esquerdo, o que lhe valeu o cruel apelido de “Frida pata de palo” (“Frida perna de pau”). Em 1925, o ônibus em que se encontrava chocou-se contra um bonde; várias pessoas morreram e Frida teve lesões permanentes provocadas por fraturas em três vértebras, fragmentação da tíbia e fíbula direitas e três fraturas na bacia. Submeteu-se a 15 cirurgias, várias delas experimentais, o que a levou a uma vida de sofrimento. Ela passou a usar vestidos compridos, que iam até aos pés, como que evocando as vestimentas multicoloridas dos nativos mexicanos, e foi até imitada no seu país como se estivesse lançando moda; mas ela estava apenas ocultando as suas deformidades.

     Ela, quando jovem, tivera aulas de desenho e de técnicas de gravura, mas só começou a pintar durante sua longa convalescença. Conheceu Diego Rivera em 1928, por quem nutriu uma verdadeira obsessão, até com ele casar-se no ano seguinte. Rivera já era o mais importante artista plástico do México. Entre os anos 1930 e 1933, o casal residiu em Nova York e Detroit. E entre os anos de 1937 e 1939, Leon Trotsky viveu em sua casa de Coyoacam, quando se tornaram amantes.

     Fisicamente, Frida não era bela, mas, sabia fazer-se interessante, apesar de ostentar um desagradável buço e de ter as sobrancelhas cerradas, emendadas. E mesmo tendo morado na maravilhosa Casa Azul, hoje museu, há registros de que vivia numa desordem completa. Esses detalhes tão pessoais nem deveriam ser mencionados face à importância de Frida Kahlo na pintura, mas, no caso desta artista, uma coisa não fluiu independente da outra.

     A obra da artista mexicana foi definida como surrealista e assim o é, efetivamente. O detalhe mais relevante, entretanto, está em que ela transferiu para as suas telas e em incontáveis auto-retratos, a dor que carregou por toda vida. Por exemplo, no quadro conhecido como “Cama Voadora”, ela aparece deitada no leito do hospital, sobre a qual flutuam um feto (símbolo do filho que não pôde gerar), um caramujo e um abdome e pelve. No chão, abaixo do leito, há uma pelve óssea, uma flor e uma autoclave, tudo isso ligado ao seu corpo através de vasos sanguíneos. O lençol está ensanguentado e do seu olho verte uma enorme lágrima. Esta descrição vale para que o leitor tenha uma ideia do clima que emana dos quadros de Frida Kahlo.

     Após várias tentativas de suicídio, Frida foi encontrada morta em 1954. Há dúvidas quanto à sua morte ter sido acidental, ou não. Embora isto não conste do seu atestado de óbito, aventa-se até a possibilidade de ter ela sofrido uma “overdose”. Também não é oficial que desta vez tenha cometido suicídio. Entretanto, consta em seu diário a seguinte frase: “Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar”.

     Tarsila do Amaral e Frida Kahlo: quanta diferença na vida, quanta semelhança na grandeza da arte!

(*) Francisco Souto Neto, o autor, é advogado, jornalista e crítico de arte.

Legendas para as fotos: Foto 1 – Autorretrato de Tarsila do Amaral. Foto 2 – “O Abaporu”, de Tarsila do Amaral. Foto 3 – Autorretrato de Frida Kahlo. Foto 4 – Frida Kahlo acamada, pintando, na companhia de Diego Rivera. Foto 5 – “A Cama Voadora”, de Frida Kahlo.

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segunda-feira, 11 de julho de 2011

"A Primeira Missa no Brasil" - Histórias e curiosidades ao redor de uma obra-prima

Arte e Memórias de Viagens

Francisco Souto Neto na Revista MARY IN FOCO nº 10 – Agosto 2007 (p. 32-34), de Mary Schaffer e Marco Antônio Felipak

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O curioso das nossas vidas é que sempre podemos aprender com nossos amigos.

Marco Felipak
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“A PRIMEIRA MISSA NO BRASIL”
HISTÓRIAS E CURIOSIDADES AO REDOR DE UMA OBRA-PRIMA

Francisco Souto Neto (*)

     O Museu Oscar Niemeyer – MON, popularmente conhecido como “Museu do Olho”, está expondo a tela original “A Primeira Missa no Brasil” (1860) de Vitor Meirelles (1832 – 1903), uma das pinturas mais conhecidas neste país, que veio a Curitiba graças ao empenho de Maristela Requião, diretora do MON, em parceria com Mônica Braunschweiger Xexéo, diretora do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, a cujo acervo o famoso quadro pertence.

     Obra constantemente estampada em livros didáticos de História do Brasil, com as extensas dimensões de 268 cm x 356 cm, já apareceu também em selos, pôsteres e cédulas.

Réis e cruzeiros...

     No campo das cédulas, ainda no Império, “A Primeira Missa no Brasil” foi reproduzida entre 1887 e 1888 em preto e laranja, no reverso das cédulas de 200 mil réis (em cujo anverso apareciam D. Pedro II e o Brasão do Império), e já em 1889 também no reverso das cédulas de 50 mil réis em sépia e preto, e na de um conto de réis na cor violeta.

     Passados mais de 50 anos, sob o padrão cruzeiro em 1943, a tela voltou a figurar, agora pela quarta vez, no reverso de uma cédula: a de Cr$1.000,00 (mil cruzeiros) na cor laranja. Foi apelidada, devido à cor, de “abobrinha”, e circulou até ao ano de 1963. Por esses motivos, ninguém da minha geração desconhece “A Primeira Missa no Brasil.

A história da tela

     Com apoio de D. Pedro II, a obra foi pintada em Paris por Vitor Meirelles que residiu na capital francesa entre os anos de 1859 e 1861, e é a primeira de um artista brasileiro que foi aceita no Salão Francês, o mais prestigiado do mundo daquela época. Em seguida, a tela foi embarcada para o Brasil e em 1876 enfrentou mais uma viagem de navio, desta feita para participar da Exposição Universal da Filadélfia, nos Estados Unidos.

     De volta ao Rio de Janeiro, passou pela primeira restauração já em 1878 pois, devido a vários incidentes na viagem entre os Estados Unidos e o Brasil, um terço do quadro estava danificado e com um furo no centro. A pintura mofou porque havia entrado água no porão do navio, onde a tela viajava enrolada.

     Outras restaurações seguiram-se enquanto transcorria o Século XX. Recentemente, graças aos mais modernos métodos tecnológicos, a obra-prima de Vitor Meirelles renasceu sob as mãos de uma equipe composta de 22 restauradores. Esses valorosos profissionais providenciaram a recuperação estrutural da tela com novo tecido de reentelamento e trabalharam na recuperação estética, removendo materiais não originais que haviam sido acrescentados com a passagem do tempo, e também antigos retoques inadequados.

     Vale acrescentar que os restauradores de obras de arte brasileiros são muito respeitados em todo mundo. Todos devemos nos lembrar de que quando a Pietá de Michelangelo, no interior da Basílica de São Pedro no Vaticano, foi danificada na década de 70 pelas marteladas de um louco, um brasileiro foi chamado para dirigir o delicadíssimo trabalho de restauração.

Os esboços e o curioso parecer do crítico

     Antes de pintar a tela, Meirelles executou centenas de estudos preparatórios, tais como da indumentária dos portugueses, das poses para os figurantes indígenas da grande plateia, detalhes de mãos, estudos de paisagem, e assim por diante. Muitos desses estudos estão expostos no MON. Foram feitos em crayon, carvão, grafite e giz sobre papel. A partir de tais desenhos, Meirelles realizou um imenso esboço colorido, mostrando como deveria ser a totalidade da tela, e o submeteu à apreciação da Academia Imperial de Belas Artes, na expectativa de obter autorização para iniciar a pintura que viria a ser feita em Paris.

   Está exposta no MON uma carta muito pitoresca, da qual eu não tinha conhecimento, dirigida pelo crítico Sr. Joaquim Barros Cabral Teive ao Secretário da Academia Imperial, após ter ele analisado o esboço colorido da futura obra. Com uma caligrafia realmente bela, Cabral Teive sugere que Meirelles faça diversas modificações, expressando-se exatamente assim em seu parecer que aqui transcrevo com o Português atualizado:

     “(...) Em primeiro lugar, acho que o altar onde se celebra a Missa deve ser coberto com panos de navio ou barraca para impedir que esteja assim (tão) exposto o Cálice, pois é costume em campo aberto celebrar-se missa em uma tenda, cuja frente seja aberta aos espectadores. Em segundo, a cor dos índios é muito vermelha e nada se assemelha à raça do Norte, a qual tem uma cor mais amarelada escura. Em terceiro, deve haver só um índio com cocar, porque este é o sinal do Chefe da tribo ou Cacique. Em quarto, deve sacrificar o primeiro plano escuro para tirar a igualdade da luz que existe, e esta (a luz) dar melhor à Vegetação Brasileira, bem como mostrar no fundo um pouco de mar com galeões fundeados, para melhor dar a ideia do assunto. São estas as minhas fracas observações que tenho a emitir, e que faço para que leve ao conhecimento do Artista”.

     É interessante notar que Vitor Meirelles atendeu a apenas algumas poucas recomendações, como por exemplo, deu aos índios uma cor mais para o “amarelado escuro”, e mostrou um pouco, realmente só um pouquinho, do mar que se avista na linha do horizonte, exatamente sob o índio trepado a um galho de árvore na parte superior direita da tela. Só olhando muito de perto, dá para perceber que o pintor pôs ali vários galeões... mas fez isto de um modo quase imperceptível.

     Isto é, Meirelles “meio que” atendeu a algumas das recomendações do técnico; contudo, e felizmente, manteve a sua opinião, por certo fantasiosa, mas bem adequada à imaginação do artista e à estética da tela, de fazer figurar vários índios ostentando cocares. Deixou o cálice descoberto quando era elevado no momento da consagração, dispensando a sugestão dos panos de navio no altar, e a tal tenda. Também ao contrário do que recomendava o Sr. Cabral Teive, ele manteve o primeiro plano à sombra, assim como a vegetação, para iluminar magistralmente apenas a cena principal, que é a do cálice elevado.

     É geralmente assim que nascem as obras-primas: seus autores infringem regras, desafiam as convenções e a lógica, e fazem imperar a sua estética pessoal.

     A exposição “A Primeira Missa no Brasil” poderá ser vista até 14 de outubro, na Rua Marechal Hermes, 999, em Curitiba.

(*) Francisco Souto Neto, o autor, é jornalista, advogado e crítico de arte


Legendas para as fotos: Foto 1 – Detalhe de “A Primeira Missa no Brasil”. Foto 2 – Estudo de indumentária em grafite sobre papel (1859), de Vitor Meirelles. Foto 3 – “A Primeira Missa no Brasil”, de Vitor Meirelles, óleo sobre tela (1860)

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Magnífico Volpi no Museu Oscar Niemeyer

Arte e Memórias de Viagens

Francisco Souto Neto na Revista MARY IN FOCO nº 9 – Julho 2007 (p. 52-53), de Mary Schaffer e Marco Antônio Felipak

Capa


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Espaço vazio

Assim como a tela branca e a folha de papel necessitam da tinta e a pureza da linha, eu, como espectador, busco a palavra e a leitura crítica de um grande amigo como Francisco Souto Neto, que veio gentilmente participar dessa viagem pelas artes.

Marco Felipak

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MAGNÍFICO VOLPI NO MUSEU OSCAR NIEMEYER

Francisco Souto Neto (*)

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   De 28 de junho a 30 de julho o MON (Museu Oscar Niemeyer) estará exibindo uma exposição retrospectiva com a obra do admirável Alfredo Volpi (1896 – 1988), nascido na Itália, donde veio para o Brasil aos dois anos de idade, de modo que é considerado um artista plástico brasileiro.

   A mostra que acontece no MON inicia-se pela Sala Frida Kahlo, em cuja entrada foram colocadas, estrategicamente, três impactantes telas da série “Composição com bandeirinhas em ogiva” (1970) que se sobressaem pelos aveludados azuis e vermelhos tão característicos de Volpi, cujo tema já deve estar fazendo parte do inconsciente coletivo dos amantes da arte, tema este que, até mesmo para os menos entendidos na obra do importante pintor, é o que mais o caracteriza: as bandeirinhas.

Os primórdios e o Grupo Santa Helena

   Após as três telas de abertura podemos vislumbrar pinturas do início da carreira de Alfredo Volpi, com paisagens rurais e suburbanas, e também de natureza expressionista, realizadas nas décadas de 20 e 30 em técnicas diversas, tais como óleo e têmpera sobre diferentes tipos de suporte, que vão do papelão e do cartão à madeira e à tela.

   O artista não participou da famosa Semana de Arte Moderna de 1922. Ele era um homem muito simples, que naquela época criava sua própria forma de expressão na pintura, sem envolver-se diretamente com os importantes movimentos que começavam a alterar o estagnado e conservador panorama da arte brasileira.

   De certo modo isolado, mas não alienado das mudanças que ocorriam nas artes plásticas, ele prosseguiu pintando paisagens e marinhas que alcançaram os anos 40.

   Uma mudança radical começou a ocorrer nas pinturas de Volpi ao início da década de 50, quando ele foi se adentrando no tema dos casarios, fachadas e telhados. Em 1953 – portanto já aos 57 anos de idade – participou da II Bienal de São Paulo, conquistando o prêmio de Melhor Pintor Nacional, que revelou o seu talento para todo o Brasil, ao mesmo tempo em que seu nome começava a atravessar as nossas fronteiras. Além disso, ele entrou para o Grupo Santa Helena, nome atribuído pelo crítico Sérgio Milliet aos pintores que se reuniam nos ateliês de Francisco Rebolo e Mário Zanini. Tal Grupo formou-se espontaneamente, na maioria por imigrantes italianos, e por filhos de italianos de origem humilde que, para sobreviver, exerciam atividades artesanais e proletárias. Para se ter uma idéia disso, vale lembrar que Volpi, Rebolo e Zanini eram decoradores e pintores de paredes; Rizzotti era mecânico, Penacchi açougueiro, Clóvis Graciano ferroviário, Rebolo jogador de futebol, e assim por diante. Esses artistas não tinham nenhum compromisso conceitual, mas encaminhavam-se, todos eles, para tornarem-se alguns dos maiores nomes de toda a história das artes plásticas no Brasil. 

   Quanto à mostra que acontece no MON, vale mencionar que a tela “Fachadas com festões e bandeirinhas”, do início dos anos 50 e que faz parte da retrospectiva, parece prenunciar o tema que se tornaria a principal referência para a poderosa arte de Volpi.

   No final dos anos 50 despontaram as suas primeiras abstrações que ele denominou “composições concretas” e “composições laços” que, como tema, se ombreavam com as bandeirinhas mescladas aos seus belos portais... E tudo isto, cronologicamente, pode ser apreciado na exposição do MON.

   Nesse período podemos observar que tanto a composição cromática quanto a estética da pintura de Volpi tornaram-se mais sofisticadas com a utilização de cores também mais intensas.

    A esta altura, quando eu mais me empolgava pelo magnífico crescendo da mostra, notei que não havia mais paredes com obras de Volpi. Pensei: “E as pinturas posteriores aos anos 50?!”. Decepcionado, indaguei ao funcionário do museu se a exposição terminava ali. E ele, solícito e gentil, disse-me que não; que a exposição com obras mais recentes continuava ao lado, na Sala Gauguin. Respirei aliviado e contornei o espaço, alcançando o outro braço da retrospectiva.

Obras mais recentes

   Na Sala Gauguin continua a mostra com as madonas e santos que Volpi pintou da década de 40 à de 60. As telas que fazem parte desta mostra do MON permitem-nos apreciar a textura do trabalho e também muito da sua técnica, até mesmo a maneira como o sensível artista corria os pincéis sobre a superfície da tela ou suporte!

   É interessante observar que nos anos 60 os arcos dos portais e as fachadas (ou elementos estilizados de fachadas) tornaram-se quase abstrações, com as bandeirinhas apenas sugeridas sem grande evidência. Um belo exemplo disto, é a tela “Grande fachada com janela azul”, da década de 60, que serve também como um modelo da extraordinária sofisticação do artista.

   Continuando a caminhada pelo museu e avançando no tempo através da arte de Alfredo Volpi, encontramos, no fim da década de 60, os seus deslumbrantes “mastros de faixas”, que são quase uma alusão aos mastros dos canais venezianos da distante Itália do artista, mas, precipuamente, elementos da arquitetura colonial brasileira.

   E foi então que Volpi, ao início dos anos 70, com suas bandeirinhas coloridas, festivas e felizes, alcançou a beleza ao infinito.

Um retorno inevitável

   Quando eu era jovem, lá pela época em que Volpi começou a destacar-se com suas bandeirinhas, lembro-me de colegas de escola, e depois até mesmo da faculdade, ou colegas de trabalho, que diziam: “Ah, essas bandeirinhas do Volpi, também os desenhos do Picasso, e os rabiscos do tal Miró, até eu sei fazer!”. Entretanto, alcançar a riqueza dos tons, a precisão dos “rabiscos”, a beleza das composições e a qualidade das “deformidades picassianas”, aí está uma missão impossível para a quase totalidade dos mortais. No caso de Volpi, é justamente a sua simplicidade que encanta. Até no momento de chamá-lo de “sofisticado”, como fiz neste texto, sabemos que a sua sofisticação não foi por ele sequer desejada, mas alcançada pela natural e elevadíssima qualidade e originalidade do seu trabalho.

   Assim, ao terminar minha visita à exposição, não senti vontade de voltar para casa. Guardei minhas anotações e a caneta no bolso, e retornei à entrada da mostra. Sem nada mais ter a anotar, pude repetir todo o percurso, para simplesmente rever e me encantar com a beleza da obra do genial artista plástico ítalo-brasileiro.

(*) Francisco Souto Neto, o autor, é advogado, jornalista e crítico de arte.

Ilustrações. 1ª foto – Fachadas com festões e bandeirinhas. 2ª foto – Bandeirinhas em contraponto. 3ª foto – Bandeirinhas e mastros. 4ª foto – Alfredo Volpi.

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